Category Archives: Cinema

António Palolo e Jef Geys na Culturgest, Lisboa

Com curadoria de Miguel Wandschneider, as exposições de António Palolo e Jef Geys que podem ser vistas a partir de hoje (inauguração agendada para as 10 da noite) no edifício sede da Culturgest põem em diálogo as experimentações formais, conceptuais e visuais dos criadores português e belga. A mostra que propõe “Os filmes” de António Palolo reúne algumas das peças do espólio videográfico do pintor e artista plástico eborense, produzidas entre o final dos anos 60 e 1978. Os primeiros filmes – registados em película de 8mm e, mais tarde, em Super 8 – são composições animadas a preto e branco, conjugando elementos iconográficos reclamados a Continue reading

“O cavalo de Turim”, de Béla Tarr

Anunciado como sendo a obra final de Béla Tarr, “O cavalo de Turim” parte de um episódio da vida de Friedrich Nietzsche para versar sobre a ruína e a devastação derradeiras da existência humana: nas ruas da cidade italiana, o filósofo assiste à brutal agressão de um cavalo, que interrompe abraçando-se ao animal, soluçando, em choro. Em voz off e fundo negro, o cineasta húngaro dá-nos a conhecer o passo que terá levado Nietzsche à insanidade e ao Continue reading

“Há lodo no cais”, de Elia Kazan

No final dos anos 40, a corrupção nas zonas portuárias de Nova Iorque inundava as primeiras páginas dos jornais. “Crime on the waterfront”, série de artigos que denunciava as injustiças sociais cometidas com os trabalhadores dos cais de Brooklyn e Manhattan, inspirou Elia Kazan a transpor para o cinema um degradante submundo de negócios ilícitos e subsequentes revoltas sindicais. Na obra prima “Há lodo no cais”, lançada em 1954, Terry Maloy (Marlon Brando) é um ex-pugilista que vive na sombra de um grupo da máfia que o Continue reading

“Filme socialismo”, de Jean-Luc Godard

Experimento formal, ensaio de desconstrução visual, incursão provocatória e movimento de assincronias, “Filme socialismo” é um exercício de collage e montagem em que Jean-Luc Godard, a partir das infinitas possibilidades do dispositivo cinematográfico (que sempre esmiuçou com singular acutilância, pela subversão dos seus lugares comuns), interpela o espetador para uma reflexão sobre a contemporaneidade, a vacuidade das semânticas modernas e o destino de uma Europa em ruínas. No mar Mediterrâneo – esse berço centrípeto de uma civilização hoje decadente –, o cineasta faz Continue reading

“Cosmopolis”, de David Cronenberg


Um prodigioso multimilionário de 28 anos atravessa as ruas de Nova Iorque para fazer um corte de cabelo – “o” corte de cabelo. “I need a haircut”, “we need a haircut” são as mnemónicas que o egocêntrico visionário Eric Packer (Robert Pattinson) repete do alto da soberba com que observa o mundo que o rodeia, e que polariza na sua futurista limusina – habitat capitalista onde vive, se recolhe e faz girar o cosmos adjacente. A partir de um antro em que tudo se negoceia de modo dissoluto e desenfreado – o dinheiro, os corpos, a arte –, Cronenberg transpõe para narrativa fílmica uma ordem mundial económica e ética em decadência, de que Packer é figura síntese. Mas, quando um espetro assombra o mundo e a ratazana parece Continue reading

“A arte da performance”, de RoseLee Goldberg

Para uma fundamentação da performance enquanto expressão artística independente, RoseLee Goldberg propõe nesta obra, originalmente publicada em 1979, a sua primeira grande abordagem histórica. Um objeto em constante atualização (pela mão da própria autora), “A arte da performance” conhece agora uma segunda e muito completa edição em Portugal pela irrepreensível Orfeu Negro, e integra um novo capítulo dedicado às recentes reconfigurações da performance na viragem para o século XXI. “Arte transgressora”, sempre se firmou como primordial manifestação de rutura e desconstrução das categorias tradicionais da arte – “vanguarda das vanguardas”. Daqui parte Goldberg para uma leitura que toma a performance como corpus de análise e Continue reading

“Cadernos de Serafino Gubbio, operador de câmara”, de Luigi Pirandello

Quando os irmãos Lumière filmaram a saída dos operários da usina, muitos foram aqueles que se fascinaram pela representação da imagem em movimento. Outros houve, porém, que temeram esse espetro fantasmático (tal como acontecera aquando do aparecimento da fotografia – e relembre-se, a este propósito, a atitude de veemente condenação de Baudelaire). Aquilo que Luigi Pirandello explora nesta crónica romanceada de 1916 não é tanto esta relação de temor com a imagem cinematográfica, mas com a própria indústria, que entretanto se automatizava para um procedimento cada vez mais mecânico e que tendia a dispensar o serviço do homem que nela trabalhava. Serafino Gubbio é um operador de câmara amargurado com o suplício crescente de ser apenas uma mão que Continue reading