“O cavalo de Turim”, de Béla Tarr

Anunciado como sendo a obra final de Béla Tarr, “O cavalo de Turim” parte de um episódio da vida de Friedrich Nietzsche para versar sobre a ruína e a devastação derradeiras da existência humana: nas ruas da cidade italiana, o filósofo assiste à brutal agressão de um cavalo, que interrompe abraçando-se ao animal, soluçando, em choro. Em voz off e fundo negro, o cineasta húngaro dá-nos a conhecer o passo que terá levado Nietzsche à insanidade e ao mutismo, para daí discorrer (sob o espectro do colapso e da atrocidade) uma peça de magistral lirismo cinematográfico. São seis os dias de sorumbática luminosidade em que “O cavalo de Turim” se reparte, assolados por um estonteante vendaval que Tarr faz repercutir para lá da tela. Um camponês, a sua filha e um cavalo, em absoluta melancolia das rotinas (taciturnas, indigentes e visivelmente penosas), deterioram-se num espaço e tempo austeros, imortalizados na sua inevitável passagem. Tal como para Nietzsche, resta apenas a angústia do silêncio, em cuja tenebrosidade se imerge quando não há mais nada: “é necessário que regresse à solidão”, escrevera o filósofo em “Assim falava Zaratustra”, anos antes da demência, “falou-me a hora do supremo silêncio; tal é o nome da minha terrível soberana”. Assombrado e assombroso, “O cavalo de Turim” foi Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim de 2011 e assinala a estreia em Portugal de uma obra de Béla Tarr, vulto maior do cinema contemporâneo, cujo universo poético e dramático ascende à intemporalidade.

14 junho [estreia nacional]
filme “O cavalo de Turim” [“A Torinói ló”], de Béla Tarr, com János Derzsi, Erika Bók,…
Midas Filmes, 2011 / 2012

 

João Eduardo Ferreira:
Este filme é sobre o tempo. Ou será ele o próprio tempo. Uma família nele diluída, sobrepondo os rituais da pobreza aos dias que se aproximam do abismo, rejeitando, afastando uma sociedade que há muito deixou de representar segurança, ameaçando antes a cadência desses dias. Um cavalo exprime a sequência da decrepitude, demonstrando que o fim está para chegar. Chegará quando o vento deixar de se ouvir. Uma obra sob a textura de António Tàpies, a sacralização visual de Andrei Tarkovski e o corpus social de John Ford.

texto no Sound + Vision

 

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