“Há lodo no cais”, de Elia Kazan

No final dos anos 40, a corrupção nas zonas portuárias de Nova Iorque inundava as primeiras páginas dos jornais. “Crime on the waterfront”, série de artigos que denunciava as injustiças sociais cometidas com os trabalhadores dos cais de Brooklyn e Manhattan, inspirou Elia Kazan a transpor para o cinema um degradante submundo de negócios ilícitos e subsequentes revoltas sindicais. Na obra prima “Há lodo no cais”, lançada em 1954, Terry Maloy (Marlon Brando) é um ex-pugilista que vive na sombra de um grupo da máfia que o suborna e manipula a seu bel-prazer. Depois de ter conduzido o jovem Joey – seu colega de trabalho no cais e cidadão exemplar – a uma cilada, Terry, “um vadio”, “sem sentimentos”, de personalidade cáustica, começa a ser atormentado pela sua consciência e culpa quando se apaixona pela irmã de Joey, descobrindo um amor que vale muito para além da ambição pelo dinheiro fácil. Confrontado com o bem e o valor da vida, o protagonista vê-se obrigado a escolher entre dois tipos de fidelidade – com a máfia ou com os seus pares explorados no porto por essa máfia – para reconquistar a sua dignidade. Algo maniqueísta no modo como expõe os princípios éticos e morais, “Há lodo no cais” é, todavia, um rasgo revolucionário no quadro do cinema moderno e realista. Kazan faz da narrativa cinematográfica espelho da crise laboral: das lutas pelo trabalho, do desemprego e do desrespeito pelos direitos civis. Num clima geral de medo, é o padre (numa interpretação tremenda de Karl Malden) que incita à revolta e que apela à redenção de Terry. Galardoado com oito Óscares da Academia – incluindo nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Ator (pelo desempenho magistral de Marlon Brando) –, “Há lodo no cais” é uma obra marcante pelo seu simbolismo político, numa época em que o autor de “Um elétrico chamado desejo” (1952) era visto pela comunidade cinéfila com descrédito: à semelhança de Maloy, Kazan era tido como um delator. Peça fulcral na história do cinema, “Há lodo no cais” está agora disponível numa nova edição em dvd que, entre outros extras, inclui uma entrevista com o realizador, o documentário “Contender: Mastering the method” e o trailer original do filme.

dvd “Há lodo no cais” [“On the waterfront”], de Elia Kazan, com Marlon Brando, Karl Malden,…
Columbia / Pris, 1954 / 2012

 

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