Category Archives: Cinema

“Magic Mike”, de Steven Soderbergh

Dois meses depois de “Uma traição fatal”, o cineasta dotado de um dos olhares mais depurados da atualidade regressa à questão do corpo como objeto especulativo, num drama pontuado por uma generosa dose de humor e que retoma alguns dos tópicos centrais da recente narrativa socioeconómica dos Estados Unidos da América. Nesta longa metragem – que pode ser entendida, em certa medida, como um espelho do seu “Confissões de uma namorada de serviço”, filme de 2009 (mas apenas estreado em Portugal há cerca de um ano) sobre uma call girl de luxo em Manhattan -, Steven Soderbergh aborda novamente o tema do mercado do sexo, agora a partir da exploração do Continue reading

“As aventuras de Tintin – O segredo do Licorne”, de Steven Spielberg

É o repórter mais icónico da banda desenhada. Destemido, audaz e com uma sede insaciável por novas histórias, Tintin enriqueceu o imaginário de todos aqueles que sonhavam com as suas arriscadas aventuras pelo Tibete, pelo Egito, pelo Congo ou até pela lua, concebidas por Hergé nos 24 livros que lhe deram vida. Depois de realizar o primeiro tomo da odisseia de “Indiana Jones” – “Os salteadores da arca perdida” (1981) – Steven Spielberg tomou conhecimento da obra do autor belga, na sequência das afinidades que foram apontadas entre as produções dos dois criadores. Fascinado pelo universo verdadeiramente cinematográfico que então se lhe revelara, o cineasta adquiriu os direitos de adaptação da coleção de Hergé. Esta primeira de três longas metragens resulta de uma súmula de outros tantos livros –  “O caranguejo das tenazes de ouro” (1940/41), “O segredo do Licorne” (1942/43) e “O tesouro de Rackham, O Terrível” (1943) –, cujas narrativas se confluem numa trama que leva Tintin e o seu fiel companheiro Milu a Continue reading

“O gato das botas”, de Chris Miller

A personagem é um clássico de Charles Perrault conhecida pela inteligência e astúcia com que fez senhor o Marquês de Carabás. Na versão que Chris Miller adaptou recentemente para o cinema, é em modo Zorro, de heroico espadachim que tem na honra e na amizade os seus valores primaciais, que nos voltamos a reencontrar com este Gato das Botas que já conhecíamos da saga “Shrek” (cujo último dos filmes foi precisamente realizado por Miller). Partindo de um encontro improvável com o Continue reading

“O moinho e a cruz”, de Lech Majewski

Numa tela em que se abre e fecha o ciclo da vida, o pintor flamengo Pieter Bruegel, O Velho faz coincidir com radical originalidade e acurado detalhe o quotidiano bucólico da vida campestre, as atrocidades das perseguições religiosas do século XVI e a Paixão de Cristo. “Die kreuztragung Christi” (comumente conhecido em Portugal como “Subida ao Calvário”), de 1564, é o quadro de maiores dimensões do primeiro dos pintores da família Bruegel, aquele em que faz figurar 500 personagens, centradas num eixo que propositadamente mantém velado – a cruz. Desafiando os cânones de expressão renascentista, sob o contexto bíblico faz da arte gesto de denúncia dos horrores infligidos pela inquisição espanhola. Tomando por inspiração esta obra de Bruegel e uma monografia do crítico de arte Michael Francis Gibson nela baseada (“’Le portement de croix’ de Pierre Bruegel, l’Aîné”, de 1996), o cineasta polaco Lech Majewski dá vida a este “quadro que conta muitas histórias”, numa magistral peça metacinematográfica. Entre as Continue reading

“Moneyball – Jogada de risco”, de Bennett Miller

No mundo do basebol, o diretor desportivo de uma pequena equipa decidiu contrariar as tradicionais convenções de estratégia para repensar o jogo a partir de uma fórmula matemática. Com um orçamento reduzido, recorrendo apenas a leis equacionais e estatísticas, Billy Beane gerou um método capaz de inventariar jogadores de alto valor desportivo e de baixo custo financeiro – e que usualmente passavam despercebidos -, dando assim ao seu Oakland Athletics um record histórico de Continue reading

“O novo ofício” no Museu Berardo, Lisboa

A mostra que hoje se inaugura (às 7 da tarde) no Museu Coleção Berardo, e que aí ficará patente até ao final de agosto, propõe-se reclamar um campo próprio de discernibilidade para a investigação musical mediante a sua presença física no espaço expositivo. Tomando como ponto de partida peças dos finais do século XIX, a exposição traça um fio condutor até à contemporaneidade, cujo eixo de leitura é o seu caráter multidisciplinar, híbrido, ambíguo e objetual. Artefactos, instalações, marginais obras escultóricas e performativas convocam plasticidades sonoras para com elas se consubstanciarem e preencherem as extensões museológicas que o espetador percorre e Continue reading

“A gruta dos sonhos perdidos”, de Werner Herzog

No cenário idílico e prístino de Pont d’Arc, no sul de França, três exploradores depararam-se, em 1994, com pinturas rupestres de devastadora beleza e inefável relevância histórica. Uma caverna, imaculada pelo gelo cristalino, mantinha intactas as mais antigas memórias figurativas jamais encontradas: as pinturas da Gruta Chauvet (nome atribuído em homenagem ao principal responsável pela expedição, Jean-Marie Chauvet) seriam datadas com 32 mil anos, o dobro dos registos cronologicamente mais distantes até então conhecidos. Praticamente inacessível e de acesso interdito (por motivos de conservação), este lugar genesíaco foi contemplado por poucos, até ao momento em que Werner Herzog conseguiu uma Continue reading