Category Archives: Literatura

“O tigre na rua e outros poemas”, antologia de poesia ilustrada por Serge Bloch

“O poema está lá, mas para o ver é preciso um microscópio”. Poema micróbio, poema absurdo, poema para um sorriso, riso e gargalhada. Poder-se-ia “Pedir com bons modos” – como, aliás, se sugere nesta nova e exemplar peça da Bruaá – tudo isso. Mas esse “tudo isso” já lá está… Sob o signo de Daniil Harms (cuja escrita de pendor vagamente infantojuvenil já havia sido reunida de modo paradigmático, e também pela Bruaá, em “Esqueci-me como se chama”, do ano passado) e da sua sugestiva aparição de um tigre na rua, é agora apresentada uma insigne coletânea de poesia humorística, de (pro)vocação tendencialmente nonsense e vanguardista, que faz viajar todo aquele que a lê pelas Continue reading

“Shakespeare”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

“Raramente um autor se viu ao espelho tão friamente e se mostrou refletido com tão escassa indulgência” como William Shakespeare. Num ensaio de suma erudição, Giuseppe Tomasi di Lampedusa (escritor de um único romance, “O leopardo”, que Luchino Visconti adaptou para o cinema), apresenta uma análise rica, depurada e singularmente transversal sobre a vida e a obra do génio de “Hamlet”. “Shakespeare” constitui um capítulo do curso de literatura inglesa do pensador siciliano, em que Lampedusa examina os quadros biográfico e literário do poeta e dramaturgo sem cair nos cómodos facilitismos de Continue reading

“Os lusíadas”, de António Fonseca

Quando, há cerca de dois anos, o ator e encenador António Fonseca declamou os cinco primeiros cantos d’ “Os lusíadas”, no Teatro Meridional, a hercúlea e insigne epopeia que anunciava era semelhante àqueloutra escrita por Camões: em 10 de junho de 2012, pelos 440 anos da edição do poema épico camoniano, recitar o texto integral da obra. Agora que chegamos a essa efeméride, António Fonseca, ator maior do teatro nacional contemporâneo, leva à Capital Europeia da Cultura um feito heroico e uma Continue reading

“En atendant” e “Cesena”, de Anne Teresa De Keersmaeker

Foi inspirada pelas paisagens naturais de suma beleza da Provença e pelas requintadas expressões artísticas da era medieval que a coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker concebeu o díptico formado por “En atendant” e “Cesena”, apresentado entre hoje e o próximo sábado nos palcos lisboetas da Culturgest, do Centro Cultural de Belém e do Teatro Camões. Imaginadas e estreadas em Avinhão (a primeira das peças nos claustros da Église des Célestins e a segunda no pátio do Palais des Papes), “En atendant” e “Cesena” partem de um estímulo estético e Continue reading

“Cosmopolis”, de David Cronenberg


Um prodigioso multimilionário de 28 anos atravessa as ruas de Nova Iorque para fazer um corte de cabelo – “o” corte de cabelo. “I need a haircut”, “we need a haircut” são as mnemónicas que o egocêntrico visionário Eric Packer (Robert Pattinson) repete do alto da soberba com que observa o mundo que o rodeia, e que polariza na sua futurista limusina – habitat capitalista onde vive, se recolhe e faz girar o cosmos adjacente. A partir de um antro em que tudo se negoceia de modo dissoluto e desenfreado – o dinheiro, os corpos, a arte –, Cronenberg transpõe para narrativa fílmica uma ordem mundial económica e ética em decadência, de que Packer é figura síntese. Mas, quando um espetro assombra o mundo e a ratazana parece Continue reading

“A arte da performance”, de RoseLee Goldberg

Para uma fundamentação da performance enquanto expressão artística independente, RoseLee Goldberg propõe nesta obra, originalmente publicada em 1979, a sua primeira grande abordagem histórica. Um objeto em constante atualização (pela mão da própria autora), “A arte da performance” conhece agora uma segunda e muito completa edição em Portugal pela irrepreensível Orfeu Negro, e integra um novo capítulo dedicado às recentes reconfigurações da performance na viragem para o século XXI. “Arte transgressora”, sempre se firmou como primordial manifestação de rutura e desconstrução das categorias tradicionais da arte – “vanguarda das vanguardas”. Daqui parte Goldberg para uma leitura que toma a performance como corpus de análise e Continue reading

“Cadernos de Serafino Gubbio, operador de câmara”, de Luigi Pirandello

Quando os irmãos Lumière filmaram a saída dos operários da usina, muitos foram aqueles que se fascinaram pela representação da imagem em movimento. Outros houve, porém, que temeram esse espetro fantasmático (tal como acontecera aquando do aparecimento da fotografia – e relembre-se, a este propósito, a atitude de veemente condenação de Baudelaire). Aquilo que Luigi Pirandello explora nesta crónica romanceada de 1916 não é tanto esta relação de temor com a imagem cinematográfica, mas com a própria indústria, que entretanto se automatizava para um procedimento cada vez mais mecânico e que tendia a dispensar o serviço do homem que nela trabalhava. Serafino Gubbio é um operador de câmara amargurado com o suplício crescente de ser apenas uma mão que Continue reading