Category Archives: Literatura

“Persépolis”, de Marjane Satrapi

Portugal conheceu primeiramente “Persépolis” pela sua adaptação ao cinema. Cinco anos depois do trabalho conjunto de Marjane Satrapi com Vincent Paronnaud, que pecava por ser cinematograficamente pouco esclarecido, a Contraponto publica a obra literária que lhe deu origem – a irrepetível e singular coleção de memórias gráficas de um Irão em crucial ponto de viragem política e cultural, visto sob o olhar irrepreensivelmente atento, consciente e quase “demasiado humano” de uma criança enquanto se transforma em adolescente e, depois, em jovem adulta. “Persépolis” reúne, num singelo registo de banda desenhada monocromática, as recordações dos flagelos da Continue reading

“Tarefas infinitas”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

Revela-se-nos com um subtítulo tão misterioso e inquietante quanto a substância e o espaço que nos convida a desvendar: “quando a arte e o livro se ilimitam”. A nova mostra que o Museu da Fundação Calouste Gulbenkian apresenta ao público nesta sexta feira (e que aí estará patente até ao mês de outubro) inscreve-se como uma proposta de ensaio e reflexão sobre as inumeráveis potencialidades semânticas e dialógicas do livro enquanto objeto de arte. Partindo do seu caráter matérico, averigua-se a hipótese do homem se Continue reading

“Do natural”, de W. G. Sebald

Publicado em 1988, “Do natural” (“Nach der Natur”) é o primeiro trabalho literário do autor alemão W. G. Sebald. Um “poema em prosa”, como o seu criador o definiu, feito de excelsas deambulações pelos meandros da melancolia, da memória, do esquecimento e da absurda angústia ante a efemeridade da vida – ambiências que haveriam de patentear a generalidade da obra sebaldiana. Os tópicos lançados circundam em torno de “um poema elementar”, que facilmente poderíamos inferir como sendo um conflito elementar. Em “Do natural”, o escritor do sublime “Os anéis de Saturno” pensa que lugar pode o homem ter na natureza depois de se perceber condenado pelos Continue reading

“As aventuras de Tintin – O segredo do Licorne”, de Steven Spielberg

É o repórter mais icónico da banda desenhada. Destemido, audaz e com uma sede insaciável por novas histórias, Tintin enriqueceu o imaginário de todos aqueles que sonhavam com as suas arriscadas aventuras pelo Tibete, pelo Egito, pelo Congo ou até pela lua, concebidas por Hergé nos 24 livros que lhe deram vida. Depois de realizar o primeiro tomo da odisseia de “Indiana Jones” – “Os salteadores da arca perdida” (1981) – Steven Spielberg tomou conhecimento da obra do autor belga, na sequência das afinidades que foram apontadas entre as produções dos dois criadores. Fascinado pelo universo verdadeiramente cinematográfico que então se lhe revelara, o cineasta adquiriu os direitos de adaptação da coleção de Hergé. Esta primeira de três longas metragens resulta de uma súmula de outros tantos livros –  “O caranguejo das tenazes de ouro” (1940/41), “O segredo do Licorne” (1942/43) e “O tesouro de Rackham, O Terrível” (1943) –, cujas narrativas se confluem numa trama que leva Tintin e o seu fiel companheiro Milu a Continue reading

“O tempo envelhece depressa”, de Antonio Tabucchi

Sobre o tempo, e os seus nós, escreveu Óssip Mandelstam no poema “O século”: “Meu século, besta minha, quem / Te olhará nas pupilas duras, / Quem soldará com o próprio sangue / As vértebras de duas centúrias?” Nestes perturbantes versos, o poeta russo refletia sobre os problemáticos primeiros anos do recém nascido século XX, que contava já, em 1922, quando estas palavras foram escritas, com o fantasma das brutalidades, de inigualáveis proporções até então, da I Guerra Mundial. Nesta coletânea de nove contos, publicada entre nós pouco tempo antes do falecimento de Antonio Tabucchi, enuncia-se na voz de um romancista anónimo “espalmou-se-me o tempo, e também um pouco as vértebras”. Do mesmo modo, aqui se pensa a passagem do tempo na sua imperativa crueldade, bem como as terríveis heranças que o Cronos lega a todos aqueles que estão destinados a ser seus meros peões. Um tempo envelhecido, que se impõe pela memória e Continue reading

“O gato das botas”, de Chris Miller

A personagem é um clássico de Charles Perrault conhecida pela inteligência e astúcia com que fez senhor o Marquês de Carabás. Na versão que Chris Miller adaptou recentemente para o cinema, é em modo Zorro, de heroico espadachim que tem na honra e na amizade os seus valores primaciais, que nos voltamos a reencontrar com este Gato das Botas que já conhecíamos da saga “Shrek” (cujo último dos filmes foi precisamente realizado por Miller). Partindo de um encontro improvável com o Continue reading

“O sonho da razão”, do Teatro da Cornucópia

De metáforas e exercícios semânticos se tece a nova produção do Teatro da Cornucópia. Com um título que invoca a gravura de Goya “El sueño de la rázon produce monstruos”, “O sonho da razão” é uma colagem de textos do iluminismo francês, em que – a partir de Voltaire, Voisenon, Sade e Diderot – Luís Miguel Cintra entretém uma singular urdidura em torno dos tópicos universais das Luzes. Pondo em confronto ciência e religião, um cético homem às portas da morte, um padre, um médico, uma mademoiselle e, finalmente, uma Continue reading