“O tempo envelhece depressa”, de Antonio Tabucchi

Sobre o tempo, e os seus nós, escreveu Óssip Mandelstam no poema “O século”: “Meu século, besta minha, quem / Te olhará nas pupilas duras, / Quem soldará com o próprio sangue / As vértebras de duas centúrias?” Nestes perturbantes versos, o poeta russo refletia sobre os problemáticos primeiros anos do recém nascido século XX, que contava já, em 1922, quando estas palavras foram escritas, com o fantasma das brutalidades, de inigualáveis proporções até então, da I Guerra Mundial. Nesta coletânea de nove contos, publicada entre nós pouco tempo antes do falecimento de Antonio Tabucchi, enuncia-se na voz de um romancista anónimo “espalmou-se-me o tempo, e também um pouco as vértebras”. Do mesmo modo, aqui se pensa a passagem do tempo na sua imperativa crueldade, bem como as terríveis heranças que o Cronos lega a todos aqueles que estão destinados a ser seus meros peões. Um tempo envelhecido, que se impõe pela memória e pela recordação pairante, perpassa todas estas “estórias” narradas, feitas de deambulações e viagens, espaciais e temporais. Repartidas entre os regimes de leste, Roma, Genebra, Berlim, Atenas, Creta ou Paris, as solitárias personagens de Tabucchi vagueiam pelas lembranças de infância, pelos tormentos notívagos e pelas insónias do passado e do porvir, na sua maior parte habitadas pela sombra da guerra e das angústias metafísicas. Alguns declaram “saudades dos tempos do muro” – um agente de segurança outrora responsável por espiar Bertolt Brecht “quando aquele cretino contemplava dos bastidores do Berliner Ensemble a carroça da sua mãe coragem”. Outros recordam os tempos de resistência à invasão soviética – um oficial do exército húngaro, com aptidões poéticas dignas das odes de Píndaro. E outros ainda – um ex-militar italiano, invocando Estrabão –, veem nas nuvens o fim de todas as guerras. A partir de Yeats (que escrevera “Men improve with the years”), Tabucchi interroga se o tempo melhora os homens ou se apenas os torna numa outra coisa, e revê que a nossa era se sintetiza nas imagens dos terrores de Hiroshima, das hipocrisias dos G8 e das atrocidades cometidas na prisão iraquiana de Abu Ghraib. Com singulares reflexões sobre a contemporaneidade, estes episódios pautam-se por uma inquietação existencial em capturar o tempo, abrindo Tabucchi o fosso da derradeira vertigem que se reconhece na sua ficção.

livro “O tempo envelhece depressa”, de Antonio Tabucchi
D. Quixote, 2012

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