“Do natural”, de W. G. Sebald

Publicado em 1988, “Do natural” (“Nach der Natur”) é o primeiro trabalho literário do autor alemão W. G. Sebald. Um “poema em prosa”, como o seu criador o definiu, feito de excelsas deambulações pelos meandros da melancolia, da memória, do esquecimento e da absurda angústia ante a efemeridade da vida – ambiências que haveriam de patentear a generalidade da obra sebaldiana. Os tópicos lançados circundam em torno de “um poema elementar”, que facilmente poderíamos inferir como sendo um conflito elementar. Em “Do natural”, o escritor do sublime “Os anéis de Saturno” pensa que lugar pode o homem ter na natureza depois de se perceber condenado pelos fenómenos primordiais. Entre o deslumbramento e o terror, Sebald apresenta-nos um tratado sobre aquilo que permanece do caráter duplo da força da terra, do mar e dos astros, cujo princípio e o fim de tudo determinam. Numa estrutura tríptica, desloca nesse “misterioso definhar do mundo” três personagens cronologicamente desfasadas entre si, mas ligadas pela consciência da simultânea “luz” e “demência” do natural. O pintor Matthaeus Grünewald, o explorador Georg Wilhelm Steller e o próprio Sebald revelam-se-nos como figuras perante o espetáculo do “belo inapreensível da natureza” e protótipos do desconsolo humano quando a vida põe em marcha a sua degradação. Um elemento de resgate e de morte que faz o homem duvidar do “equilíbrio” das coisas e afundar-se numa solidão imensa como a que os retábulos bíblicos de Grünewald transparecem, e que Sebald vividamente retrata. De uma linguagem liricamente aprimorada, que abarca detalhadas descrições de quadros visuais e históricos, bem como reflexões de pendor mais filosófico, este poema original é ainda revestido de apontamentos autobiográficos, em que o autor se espelha nas recordações familiares de uma Nuremberga em chamas e nas leituras de Paracelso, que dizia que “o corpo se tinge com as cores da doença como um tecido”. Sobre o resplendoroso e atemorizante estado selvagem que à humanidade escapa e o fim que se consuma inevitável, esta seminal e valiosa peça de um dos maiores vultos da literatura contemporânea é pela primeira vez publicada em Portugal pela cuidadosa mão da Quetzal, que com “Do natural” dá início a uma coleção inteiramente dedicada à obra de W. G. Sebald.

livro “Do natural”, de W. G. Sebald
Quetzal, 2012

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