Erykah Badu ao vivo no Hipódromo Manuel Possolo, Cascais

Num cântico que carrega a história de resiliência de um povo, Erykah Badu assume a liderança espiritual à maneira daqueles que a precederam, ecoando um imanente “Hold on, my people”. No colossal “New Amerykah, part one – 4th World War”, de 2008, a mais integral das escultoras da soul contemporânea versou sobre o passado matricial da cultura afro-americana e um mundo transformado pela sombra fantasmática do 11 de setembro. Um apologético manifesto sociopolítico tecido da miscigenação das matérias primas sonoras de que Erykah sempre se revelou magistral artesã. Desde o iniciático e deslumbrante rasgo de voluptuosidade de “Baduizm” (1997) que a herdeira cabal do legado de mestres sagrados como Billie Holiday, Minnie Riperton ou Roy Ayers se afirmou de vontades extemporâneas e de intentos maiores ao alcançar o cruzamento dos universos plurais da música negra com excursões pelo jazz, pelo hip hop ou pelo rock psicadélico na linha de ação que une Jimi Hendrix às premissas fundadoras da Black Rock Coalition. Pela solidificação das matizes e texturas que “Mama’s gun” (2000) patenteava e que a obra prima “Worldwide underground” (2003) reinventaria, Erykah Badu reconfigurou as diretrizes estéticas dos géneros a que dava voz. De lírica subtil e de emotividade legível, espelhava a intimidade (“My eyes are green / Cause I eat a lot of vegetables / It don’t have nothing to do with your new friend”), difundia apelos ao amor primordial (“Bag lady you gonna hurt your back / Dragging all them bags like that / I guess nobody ever told you / All you must hold on to / Is you, is you / Is you”) e denunciava os niilismos hodiernos (“Most intellects do not believe in God / But they fear us just the same”). A mais recente peça da sua iluminada obra, “New Amerykah, part two – Return of the Ankh” (2010) sintetiza o segundo tomo do manual de leitura para esta nova ordem, em que Erykah surge com um antídoto possível: “This one is the healer, hip hop”. Figura que convoca experiências de comunhão sónica e êxtase absolutos, Erykah Badu irradia pela primeira vez o nosso país amanhã à noite (e há quanto, quanto tempo se fazia esperar por cá…), no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, para uma histórica sessão de epifanias e tessituras de uma mulher que, entre o sobrenatural e o humano, se arroga – tão justamente – à integridade: “Sometimes it’s hard to move, you see / When you’re growing publicly / But if I have to choose between / I choose me”.

19 julho, 10 pm
concerto Erykah Badu
Hipódromo Manuel Possolo, Cascais
Cascais Music Festival

 

site de Erykah Badu

facebook de Erykah Badu

 

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