“Vergonha”, de Steve McQueen

Descortinando as tensões emocionais de um novaiorquino de sucesso, o realizador Steve McQueen apresenta nesta segunda longa metragem com a sua assinatura autoral uma magistral peça de lúbrica consciência e cuidada sensibilidade sobre as fraquezas a que a nossa condição humana amiúde se vaticina. “Vergonha” é uma articulada narrativa que expõe de forma crua e tocante os sentimentos de um homem perdido nos seus recalcamentos e na experiência compulsiva da sua sexualidade enviesada. Michael Fassbender dá corpo (e louvores se lhe rendam) a Brandon, um executivo de topo que vive enredado numa obsessão insaciável de satisfazer os seus prazeres carnais. Incapaz de se abrir à intimidade, nos afetos vê exclusivamente um caráter funcional e o absoluto anonimato. No protagonista, o realizador faz girar um jogo de duplas faces para evidenciar as suas consequências últimas: do imperioso endeusamento do vício só pode resultar a solidão. Brandon é um paradigmático anti-herói que McQueen estatui e estilhaça com singular habilidade rítmica. Num compasso intermitente, incessante, métrico e metódico (tal como o próprio Brandon o parece ser), fragmenta-se o real com a aparição de um fantasma familiar e moral, desnunando-se a mais humana fragilidade de uma identidade já esbatida. Chegado agora ao mercado nacional de video, poucos meses depois da sua estreia, “Vergonha” oferece-se como drama de complexa análise sobre as voláteis relações da contemporaneidade, mas igualmente como ímpar gesto de beleza cinematográfica, em que da ruína da existência se faz lírica capaz de a superar.

dvd “Vergonha” [“Shame”], de Steve McQueen, com Michael Fassbender, Carey Mulligan,…
Zon, 2011 / 2012

 

João Eduardo Ferreira:
Steve McQueen é um esteta do tempo. Intensifica o olhar do espetador no momento da crise e deixa-o lá ficar. A corrida sobre Nova Iorque noturna após a usurpação do espaço e da intimidade, a canção que se prolonga sobre a revelação de uma memória afetiva, a cena de falsa pornografia redimindo o último sacrifício. Tudo é lento porque tudo é inevitável.

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site de “Vergonha”

facebook de “Vergonha”

 

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