“Os descendentes”, de Alexander Payne

Estreado quase oito anos depois de “Sideways”, este espantoso “Os descendentes” – a mais recente longa metragem de Alexander Payne, que agora chega aos suportes do home video – é um drama com minuciosos laivos de humor e despojado de artifícios, que se oferece a uma simplicidade graciosa e exemplarmente comedida. A crise familiar, o afastamento emocional e a fragmentação das relações afetivas apresentam-se como vórtices deste filme, em que o realizador greco-americano, com temperada sensibilidade, põe em confronto o advogado Matt King (George Clooney) com as consequências do seu crescente distanciamento parental e conjugal. Perante um gravíssimo acidente da mulher – que fica condenada a um coma perene –, o protagonista desloca o olhar para a família, reavaliando o seu papel de pai e de marido. Fator espoletador de uma autorreflexão, o catastrófico incidente desencadeia um processo de reencontro do protagonista consigo mesmo, com as suas filhas, com as suas origens, com uma primeva identidade que subvertera. A omnipresença do espectro da perda coloca-nos, na qualidade de espetadores, num patamar de afetos que facilmente poderia incorrer num dramatismo fácil – mas Payne (em grande medida graças à interpretação notável de Clooney e da igualmente elogiável jovem atriz Shailene Woodley) não se permite a refúgios vagos. Uma obra que é um assinalável registo de moderada sobriedade e lacónica dor, mas também de inteligente humor, que escrutina o âmago de um homem em busca de si próprio num Havai natural e em análoga luta de sobrevivência simbólica.

dvd “Os descendentes” [“The descendants”], de Alexander Payne, com George Clooney, Shailene Woodley,…
Twentieth Century Fox / Pris, 2011 / 2012

 

texto no Doodles

João Lopes:
Será que, nestes tempos pouco familiares, existe uma maneira “correta” de refazer o melodrama… familiar? Alexandre Payne acredita que sim e a sua crença confere-lhe um lugar paradoxal no atual cinema americano: porque não abdica das subtilezas de escrita herdadas dos mestres clássicos (Mankiewicz: presente!) e porque, ao mesmo tempo, a sua escrita possui o valor de uma reportagem sobre o instável aqui e agora. George Clooney é o espelho magnífico desse labor, e reduzi-lo a uma figura que fica bem nas passadeiras vermelhas será apenas um gesto de banal demagogia. texto no Sound + Vision

 

site de “Os descendentes”

facebook de “Os descendentes”

 

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