“Os descendentes”, de Alexander Payne

O realizador dos bem intencionados “Sideways” (“Sideways”, 2004) e “As confissões de Schmidt” (“About Schmidt”, 2002), o norteamericano Alexander Payne, brinda-nos agora com um espantoso melodrama regido, em grande medida, por um momento interpretativo particularmente paradigmático de George Clooney – vulnerável, desnorteado, austero, complexo e sentimentalmente dilacerado, assume o exigente protagonismo familiar no período que se segue ao acidente de barco que deixa a sua mulher em coma profundo. Arrependido da distância afetiva a que recentemente submetera o seu casamento e o seu empenho parental, Matt vê a sua existência subitamente monopolizada pelas tentativas de devolver Elizabeth à consciência, bem como de gerir da forma menos dramática possível a relação das duas filhas com o seu regresso tardio ao papel de pai e, simultaneamente, com a crescente probabilidade da mãe ter mergulhado numa condição clínica irreversível. Uma história – transferida cinematograficamente a partir do romance de Kaui Hart Hemmings – sobre o que numa família pode unir traumas e alegrias, indiferença e compromisso, como uma viagem pelo instinto de sobrevivência emocional que, em cenários de dor extrema, se garante eminentemente pela união dos que partilham sangue e genes. Cinema com gente dentro, sobre os limites da resignação anímica perante a tragédia, com uma sensibilidade desencantada (e, por isso, tão humana) que não abunda em filmes de tempos recentes.

19 janeiro [estreia nacional]
filme “Os descendentes” [“The descendants”], de Alexander Payne, com George Clooney, Shailene Woodley,…
Big Picture, 2011 / 2012

 

João Lopes:
Será que, nestes tempos pouco familiares, existe uma maneira “correta” de refazer o melodrama… familiar? Alexandre Payne acredita que sim e a sua crença confere-lhe um lugar paradoxal no atual cinema americano: porque não abdica das subtilezas de escrita herdadas dos mestres clássicos (Mankiewicz: presente!) e porque, ao mesmo tempo, a sua escrita possui o valor de uma reportagem sobre o instável aqui e agora. George Clooney é o espelho magnífico desse labor, e reduzi-lo a uma figura que fica bem nas passadeiras vermelhas será apenas um gesto de banal demagogia. texto no Sound + Vision

 

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