Category Archives: Literatura

“Nada está escrito”, de Manuel Alegre

Numa “Balada dos aflitos”, Manuel Alegre escreve que “este por certo não é tempo de poesia”. Não tem novas de pão e vinho para um povo assolado por uma crise económica, cultural e identitária, em que pouco mais pode ser do que poeta de um país de bandeira esfarrapada. Mas, neste reino, a quem tudo é recusado e onde tudo se avalia, diz Alegre, figura em que autor e sujeito poético voluntariamente se confundem, “talvez o poema traga um novo dia”. Em “Nada está escrito”, Manuel Alegre faz a apologia da arte poética, essa desconcertante musa que irrompe no silêncio da noite, e reflete sobre o poder do Continue reading

Maurice Sendak [1928 / 2012]


Imaginou o sítio dos mais grotescos e adoráveis monstros do mundo. Maurice Sendak, um dos mais marcantes e iconoclastas escritores e ilustradores infantojuvenis do século XX, faleceu hoje, aos 83 anos. Nasceu em Brooklyn, em 1928, no seio de uma família judia, e a experiência do Holocausto, que o assolou de forma terrível, afetou o seu modo de ver e sentir a realidade. Sendak, contrariando as tendências moralistas, não retratou a inocência das crianças, mas revelou a sua crueldade e o lado mais negro da infância, traçando assim uma linha inovadora na literatura e na ilustração juvenil. Com “Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”, de 1963), editado em Portugal pela Kalandraka, explorou no pequeno rei Max e na sua relação com um Continue reading

“minhamãe”, de Eugénio Roda e Gémeo Luís

“minhamãe” destaca-se pela originalidade, plural e equilibrada, efetivamente partilhada e partilhável. A dimensão universal da poética da maternidade é escrita, ilustrada, traduzida, produzida por uma equipa internacional e de intenção internacionalizante. A dupla Gémeo Luís (pseudónimo de Luís Mendonça) e Eugénio Roda (pseudónimo de Emílio Remelhe) destaca-se no panorama artístico português, não só pela originalidade da sua linguagem gráfica e articulação textual, como pelos Continue reading

“James e o pêssego gigante” e “Matilda”, de Roald Dahl e Quentin Blake

Dois clássicos imperdíveis de Roald Dahl, a redescobrir nestas recentes edições da Civilização: “James e o pêssego gigante” (originalmente publicado em 1961) e “Matilda” (datado de 1988, dois anos antes da morte de Dahl). O charme intemporal da escrita do autor de “Charlie e a fábrica de chocolate” (que, no ano passado, inaugurou esta coleção da Civilização) e a cuidadosa escolha dos protagonistas destas aventuras (mais ou menos reais ou totalmente inverosímeis) fazem de “James e o pêssego gigante” e de “Matilda” narrativas que nunca passam de moda: tanto James como Matilda são crianças, pequenas e solitárias, aparentemente vulneráveis, vítimas de Continue reading

82.ª Feira do Livro de Lisboa


Celebrando ainda o Dia Mundial do Livro, que ontem se comemorou, começa hoje mais uma anuidade da já octogenária Feira do Livro de Lisboa. A edição deste ano – organizada, como habitualmente, pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – contará com 206 pavilhões e estará no seu habitat natural, o Parque Eduardo VII, até ao dia 13 de maio. O Institut Franco-Portugais e o Goethe Institut organizam uma série de debates e palestras em torno dos temas “Trabalho editorial” e “Tradução”, nas quais marcarão presença alguns convidados internacionais. Para além destas tertúlias, a programação da feira contará com um painel de debates dedicado ao Brasil e aos “livros do ano em Portugal” nas áreas da ficção, não ficção e literatura infantojuvenil, e ainda com muitas atividades para crianças. A recordar que, à semelhança de anos anteriores, haverá as sempre Continue reading

“Os cadernos de Pickwick”, de Charles Dickens


Se existem escritores universais, porque eternos, um deles é Charles Dickens (1812-1870). Outro, claro, é Mark Twain (1835-1910). A comparação é necessária porque permite especular sobre diversos motivos sem qualquer importância. Uns, talvez ancorados numa língua planetária, outros numa época histórica que punha em causa romantismos, ordens económicas, revoluções industriais. Uma época caraterizada também pela expansão consistente da imprensa, a que se poderá chamar “democratização da leitura”. Através de uma relação constante e jornalística, dir-se-ia cronista, com os seus vastos públicos, o trabalho afincado destes autores baseava-se na criação de um mundo de padrões sociais que eram o reflexo direto dos leitores, revendo nelas não os seus próprios tiques mas os dos vizinhos. Figuras que constituem um catálogo de personagens únicas, dentro de Continue reading

“A caixa negra”, de Amos Oz

Peter Gabriel refere-se a Nelson Mandela como pai da humanidade. Concordamos. Acrescente-se que o mundo deveria considerar ainda Amos Oz como seu alicerce, mas igualmente pilar da literatura e das relações entre os homens. Não apenas por lutar diariamente pelo entendimento entre políticas e povos desavindos, nomeadamente através da organização Peace Now, que ajudou a fundar na década de 70, mas por escrever livros fundamentais como “Uma história de amor e trevas”, “Uma pantera na cave” ou “O meu Michael”. Em “A caixa negra”, publicado originalmente em 1987, Amos Oz utiliza a forma de romance epistolar para abrir a Continue reading