Monthly Archives: January 2012

“Ilustrarte ’12” no Museu da Eletricidade, Lisboa

Sendo a ilustração provavelmente o campo criativo onde se registaram na última década as mais entusiasmantes evoluções no pálido cenário cultural português, é algo natural que a “Ilustrarte” – a louvável bienal dedicada à ilustração para a infância que em 2003 começou discretamente a fazer história na cidade do Barreiro, e que agora está solidamente instalada em Lisboa – chegue a esta sua 5ª edição com um imenso sucesso artístico e mediático garantido logo no momento da abertura, que hoje acontece. A concurso estiveram Continue reading

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“Road to nowhere – Sem destino”, de Monte Hellman

É um filme que (con)funde realidade e ficção, intriga e especulação, suicídio e homicídio, cinema e amor (cinema com base num amor e amor com base no cinema), uma atriz demasiado parecida com a personagem que vai interpretar e diversas outras rimas que transformam a poesia abstrata da sua ação no mais fascinante puzzle cinematográfico estreado por cá em 2011 (nivelando-se, nessa perspetiva, apenas com o igualmente histórico “A árvore da vida”, de Terrence Malick). Ou, seguindo a citação do próprio Monte Hellman impressa na contracapa do dvd, “Este filme é um enigma impossível. Cabe a cada espetador resolvê-lo sozinho.” O realizador, que completa em julho 80 anos, concebe nesta sua primeira longa metragem em mais de duas décadas um filme dentro de outro filme, fulgurante súmula das Continue reading

“Voo noturno / Correio do sul”, de Antoine de Saint-Exupéry


Com um arguto prefácio de André Gide, numa tradução fluída de Mário Dias Correia, a Casa das Letras editou recentemente num só cuidado volume duas emblemáticas obras de Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944): “Voo noturno” (1931) e “Correio do sul” (1929). Acusando a influência de Gide e de Nietzsche, de Conrad e de Verne, no seu brevíssimo e poético “Voo noturno” Saint-Exupéry constrói a complexa figura do Continue reading

“Soul time!”, de Sharon Jones & The Dap-Kings

Poucos meses depois da avassaladora passagem pelos palcos do Parque Marechal Carmona, Cascais (concerto integrado no Cascais Cool Jazz Fest), e da Casa da Música, Porto, os novaiorquinos Sharon Jones & The Dap-Kings publicam este “Soul time!”, que mantém a sua fasquia musical intocável – ainda no ponto mais elevado da soul contaminada pelo funk registado neste século, exatamente onde a havia conduzido nos quatro fundamentais álbuns de originais que compõem a sua discografia: “Dap dippin’ with…” (2002), “Naturally” (2005), “100 days, 100 nights” (2007) e “I learned the hard way” (2010), todos com o vital selo de garantia da sua imaculada editora, a Daptone. A “surpresa” de tamanha coerência e solidez é tanto maior quanto se trata de uma compilação de material até aqui disperso por Continue reading

“Vénus negra”, de Abdellatif Kechiche

Já tinha reunido o respeito e a profunda admiração de uma fatia significativa da comunidade cinéfila portuguesa com os espantosos “A esquiva” (“L’esquive”, 2003) e “O segredo de um cuscuz” (“La graine et le mulet”, 2007), mas foi com este “Vénus negra” que o realizador de origem tunisina Abdellatif Kechiche passou a integrar de pleno direito um restrito grupo de nomes que, em anos recentes, tem elevado o cinema de autor a um patamar de exigência artística extrema. Estreada entre nós em agosto passado e recentemente convertida para dvd, esta é a chocante história verídica de uma empregada doméstica hotentote trazida pelo seu patrão, há cerca de 200 anos, da sua casa na África do Sul para a Europa (Londres e Paris), e da exploração desumana a que este a submete, exibindo o seu corpo Continue reading

“Mount Wittenberg orca”, de Dirty Projectors + Björk

Os Dirty Projectors são um dos mais infalíveis bastiões de defesa do sentido de aventura e risco aplicados à música pop de anos recentes. Contando com o apoio inicial da National Geographic Society, para cujos projetos de investigação e proteção marítima revertem os lucros das vendas, este é o espantoso resultado do encontro criativo do coletivo com Björk Gudmundsdóttir, sua assumida admiradora, em redor de uma história sobre uma Continue reading

“Martha Marcy May Marlene”, de Sean Durkin

Que ânimo nos dá começar um ano de estreias cinematográficas com uma surpresa deste calibre… “Martha Marcy May Marlene” é um drama psicológico de raro fulgor artístico e dramático, que encontra a sua protagonista no momento da fuga à tirania social e sexual de uma seita que representou a única realidade da sua vida no par de anos anterior (onde assumia o papel de Marcy May e, pontualmente, de Marlene) e o duro choque emocional enfatizado pelo regresso ao seu núcleo familiar (onde é e sempre foi Martha). Tentando gerir os diferentes níveis de desconforto dos dois cenários, Martha vagueia penosamente entre memórias e traumas, entre pesadelos e a desamparada recuperação moral e afetiva que tenta empreender. Um thriller que assinala estreias ao mais alto nível da protagonista – uma Elizabeth Olsen em Continue reading