Monthly Archives: January 2012

“Music of Vladimir Martynov”, do Kronos Quartet

A propósito de Vladimir Martynov, David Harrington – violinista, fundador e diretor artístico do Kronos Quartet – disse que a sua música parece refletir e absorver a humanidade de uma forma singularmente bela. O Kronos Quartet é um dos mais requintados e exigentes quartetos de cordas da música contemporânea, cuja transversalidade de repertório perpassa a música clássica, a minimal, o jazz, folclores distintos, bandas sonoras e uma miríade de colaborações com outros compositores e artistas, entre os quais se destacam os nomes de Steve Reich, Terry Riley, Philip Glass, Tom Waits, Allen Ginsberg ou Astor Piazzolla. Neste seu recentíssimo e paradigmático registo, tocam três peças especialmente escritas ou reequacionadas por Vladimir Martynov para os seus dois violinos, viola e violoncelo. O percurso deste notável compositor contemporâneo (nascido em 1946) fez-se entre a educação clássica no conservatório e as experimentações da música serial, quando, no final dos anos 70, se começou a dedicar à Continue reading

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“Mistérios de Lisboa”, de Raúl Ruiz

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Lemos o livro e vimos o filme. O livro escreveu-o Camilo Castelo Branco em 1854. O filme, estreado a 21 de outubro de 2010 (também apresentado em formato de série televisiva em 2011), produziu-o Paulo Branco e realizou-o o prolífico e enigmático chileno Raúl Ruiz (1941-2011). O realizador é um visitante experiente do romance oitocentista, de Balzac a Proust, apaixonado por Continue reading

“J. Edgar”, de Clint Eastwood

Personalidade enigmática da história dos Estados Unidos da América, John Edgar Hoover é a figura que concede nome e tema ao novo filme de Clint Eastwood. Depois de “Invictus”, de 2009, o realizador volta a aproximar-se do universo da cinematografia biográfica. “J. Edgar” é um retrato do primeiro e mais marcante diretor do FBI, evidenciando como o prestígio do proeminente bureau é indissociável da vida daquele que lhe deu corpo. Marcado por um discurso seco e cru, bem ao jeito de Eastwood, a personagem de Hoover, encarnada por Leonardo DiCaprio, capta o homem que durante mais de 40 anos acompanhou e controlou as Continue reading

“As bacantes”, de José Celso, no São Luiz Teatro Municipal, Lisboa

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Uma “tragicomediorgia”, ou seja, uma “ópera de carnaval”. Aquilo que José Celso, vulto maior do teatro brasileiro moderno, faz com o texto clássico de Eurípides, é uma monumental interpretação contemporânea que cruza a tragédia grega sobre a morte de Penteu, rei de Tebas, por se recusar a adorar o deus Baco e proibir todas as Continue reading

“Os descendentes”, de Alexander Payne

O realizador dos bem intencionados “Sideways” (“Sideways”, 2004) e “As confissões de Schmidt” (“About Schmidt”, 2002), o norteamericano Alexander Payne, brinda-nos agora com um espantoso melodrama regido, em grande medida, por um momento interpretativo particularmente paradigmático de George Clooney – vulnerável, desnorteado, austero, complexo e sentimentalmente dilacerado, assume o exigente protagonismo familiar no período que se segue ao acidente de barco que deixa a sua mulher em coma profundo. Arrependido da distância afetiva a que recentemente submetera o seu casamento e o seu Continue reading

Gustav Leonhardt [1928 / 2012]

Foi um aristocrata singular no campo dos intérpretes de música erudita da segunda metade do século passado, com uma abordagem que primava pelo rigor intelectual, pela austeridade formal e por uma inata e profunda compreensão da conjuntura histórica subjacente a cada peça que interpretava. Gustav Leonhardt foi pioneiro e empenhadíssimo promotor do movimento apologista da interpretação do repertório clássico exclusivamente com instrumentos e padrões técnicos das épocas em que fora originalmente escrito. Cravista e pianista de importância central na história da música, o holandês foi também maestro, musicólogo, professor e editor, atuou e gravou com os mais diversos tipos de Continue reading

“Crazy Horse”, de Frederick Wiseman

Ao cineasta Frederick Wiseman corresponde um dos mais nobres e decisivos capítulos da história do documentário no cinema das últimas décadas. Como homem profundamente sábio que é, tem sido o arauto de um ângulo de observação da sociedade contemporânea – subtil nos seus meios mas incisivo nos seus fins, e pleno de uma profunda consciência artística – que tendencialmente toma como matéria base de ação o seu centro operacional estratégico: as pessoas, mais ou menos comuns, e a mundaneidade dos seus trabalhos e rotinas. Desde há mais de quatro décadas que Wiseman põe a nú nas suas películas uma série de Continue reading