Category Archives: Cinema

“Hannah Arendt”, de Margarethe von Trotta

margarethe von trotta hannah arendt

De onde vem a noção de “a banalidade do mal”, formulada por Hannah Arendt, no ano de 1961, ao escrever sobre o julgamento, em Jerusalém, do nazi Adolf Eichmann? Sabemos que vem de uma exigência radical, radicalmente perturbante e polémica: a de tentar compreender o comportamento de Eichmann para além de qualquer abstração do mal, conferindo especial atenção ao facto de ele próprio se apresentar como um elo “passivo” (banal, precisamente) de uma hierarquia militar. Mas vem também da observação de Eichmann nas imagens do seu julgamento. O filme de Margarethe von Trotta é construído a partir da contundência dessas imagens: existem várias horas de Continue reading

“Reino animal”, de David Michôd

david michod animal kingdom

Por vezes, a recriação dos modelos clássicos acontece através de uma insólita deslocação geográfica e cultural. Assim acontece nesta revisitação do thriller americano com assinatura de um argumentista-realizador da Austrália: David Michôd recupera o jogo de ambivalências morais do Continue reading

“Eu e tu”, de Bernardo Bertolucci

bernardo bertolucci eu e tu

Onde estão os jovens envolvidos nas convulsões de maio de 68 que Bernardo Bertolucci filmou em “Os sonhadores” (2003)? Dir-se-ia que, com “Eu e tu” (estreado em Cannes 2012), Bertolucci nos vem dar notícias dos respetivos descendentes… Não são notícias redentoras, quanto mais não seja porque esta é a história de um rapaz de 14 anos que Continue reading

“Like someone in love”, de Abbas Kiarostami

abbas kiarostami like someone in love

Em 1990, Abbas Kiarostami rodou “Close-up”, sobre o episódio verídico de um homem que se fez passar por um outro cineasta iraniano (Mohsen Makhmalbaf), convencendo uma família a participar num dos “seus” filmes… O estranho efeito de verdade de “Close-up” era tanto mais envolvente quanto alguns dos protagonistas do caso participaram na (re)encenação de Kiarostami, intensificando um dos princípios do seu universo: a verdade é um produto de instável energia, resultando não de uma “transcrição” do que quer que seja, mas de uma verdadeira ocupação da realidade visível. Dir-se-ia que, na sua metódica contundência, a vitalidade de tal princípio não tem limites. Assim, em “Like someone in love”, assistimos ao encontro de uma jovem prostituta com um velho professor, rapidamente baralhado pelo Continue reading

“Por detrás do candelabro”, de Steven Soderbergh

steven soderbergh behind the candelabra

De que falamos quando falamos de Liberace? Do pianista cujo carisma e exuberância superaram todas as modas, entronizando-o como símbolo abstrato do entertainment? Da celebridade que resistiu até final (faleceu, vitimado por sida, em 1987), inclusive através de ações nos tribunais, ao reconhecimento público da sua homossexualidade? Do ser humano que, para além do fausto das suas performances, viveu uma existência de crescente e angustiada solidão? De tudo isso, sem dúvida. E também do que, através disso, envolve uma visão cética das Continue reading

“Como um trovão”, de Derek Cianfrance

derek cianfrance the place beyond the pines

É verdade que o título português encontra a sua justificação nos diálogos do filme, mas é pena que o sentido geográfico do original – “The place beyond the pines” – se tenha perdido. Sobretudo porque se trata de aludir a uma geografia que, no limite, para além das evidências de qualquer mapa, é sempre interior. Mais do que isso: essa interioridade, sendo emocional, é também eminentemente social, já que, uma vez mais, Derek Cianfrance filma as convulsões de uma Continue reading

“Blue Jasmine”, de Woody Allen

woody allen blue jasmine

De facto, ela não se chama Jasmine. Mudou de Jeanette para Jasmine, procurando garantir alguma vibração romanesca à sua pose social… Mais do que isso: a heroína do novo filme de Woody Allen poderia ostentar o apelido DuBois, de tal modo ele assumidamente a inventa a partir da Blanche DuBois que Tennessee Williams cristalizou, há mais de meio século, em “Um elétrico chamado Desejo”. Enfim, as atribulações dos nomes são sempre tragédias da identidade. E não se fala de outra coisa neste filme que devolve o Continue reading