Category Archives: Cinema

“Fuga”, de Jeff Nichols

jeff nichols mud

Desconcertante visão: num tempo em que predominam os heróis mais ou menos super, mais ou menos digitais, Jeff Nichols propõe um regresso à terra. Em sentido literal e simbólico. “Fuga” é uma desencantada crónica sobre uma América enquistada no tempo, um país de lugares enigmáticos e envolventes, por vezes inquietantes, onde o protagonista de nome Mud (é esse, aliás, o título original: “Mud”) tenta encontrar um lugar em que as suas culpas possam ser redimidas. Que sejam dois rapazes a Continue reading →

“Grand Central”, de Rebecca Zlotowski

rebecca zlotowski grand central

É bem verdade que, na última década, algum do mais interessante cinema francês nasce de uma paciente revalorização dos dispositivos específicos do melodrama. O caso de “Grand Central” é tanto mais subtil quanto um dos mais viscerais elementos melodramáticos – a irredutibilidade de cada corpo – surge enquadrado pelo tema sempre perturbante da Continue reading →

“Raptadas”, de Denis Villeneuve

denis villeneuve prisoners

Que é um enigma policial? Por certo, um exercício de dramaturgia que, através de uma lógica de investigação, conduz a um desenlace mais ou menos apaziguador. Mas também um espelho ambíguo, por vezes perturbante, daquele(s) que investiga(m). O filme de Denis Villeneuve sabe dessa duplicidade e, metodicamente, vai Continue reading →

“O último Elvis”, de Armando Bo

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Talvez seja mesmo verdade. Na ausência do corpo, talvez vivamos sob o signo do espírito de Elvis Presley. Ou, pelo menos, essa possibilidade assombra os seus imitadores profissionais. Armando Bo filma um deles num verdadeiro jogo de espelhos, perversamente documental: o seu ator principal, John McInerny, arquiteto de formação, dedica-se também a Continue reading →

“Frances Ha”, de Noah Baumbach

noah baumbach frances ha

A história dos filmes é também uma permanente lição sobre o fluxo ambíguo do tempo. E, nessa medida, sobre o nosso envelhecimento. Assim, voltámos a celebrar a excelência de escrita de Woody Allen graças a “Blue Jasmine”, como se ele fosse a emanação de um cinema abstrato, exterior ao próprio tempo. Subitamente, deparamos com esta crónica novaiorquina assinada por Noah Baumbach, centrada numa personagem à deriva pelo mapa das Continue reading →

“Abelhas e homens”, de Markus Imhoof

markus imhoof more than honey

Eis uma curiosa interrogação cinematográfica: como seguir o movimento das abelhas? Graças à sofisticada evolução de câmaras e objetivas, Markus Imhoof pode dar uma resposta de espetacular exuberância: desde as tarefas da polinização até aos rituais no Continue reading →

“Gravidade”, de Alfonso Cuarón

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Paradoxo essencial: o cinema a três dimensões não se limita a alterar a composição do espaço; todo o seu aparato (incluindo os óculos que o espetador tem de usar) implica uma nova conceção do tempo, quer dizer, das durações através das quais elaboramos a nossa perceção do… espaço. Depois de Steven Spielberg (“As aventuras de Tintin – O segredo do Licorne”) e Martin Scorsese (“A invenção de Hugo”), Alfonso Cuarón surge como um dos poucos cineastas a refletir sobre as subtis implicações de tudo isso: “Gravidade” é um filme em que o 3d não se apresenta como um complemento mais ou menos pitoresco da Continue reading →