Category Archives: Cinema

“J. Edgar”, de Clint Eastwood

Personalidade enigmática da história dos Estados Unidos da América, John Edgar Hoover é a figura que concede nome e tema ao novo filme de Clint Eastwood. Depois de “Invictus”, de 2009, o realizador volta a aproximar-se do universo da cinematografia biográfica. “J. Edgar” é um retrato do primeiro e mais marcante diretor do FBI, evidenciando como o prestígio do proeminente bureau é indissociável da vida daquele que lhe deu corpo. Marcado por um discurso seco e cru, bem ao jeito de Eastwood, a personagem de Hoover, encarnada por Leonardo DiCaprio, capta o homem que durante mais de 40 anos acompanhou e controlou as Continue reading

“Os descendentes”, de Alexander Payne

O realizador dos bem intencionados “Sideways” (“Sideways”, 2004) e “As confissões de Schmidt” (“About Schmidt”, 2002), o norteamericano Alexander Payne, brinda-nos agora com um espantoso melodrama regido, em grande medida, por um momento interpretativo particularmente paradigmático de George Clooney – vulnerável, desnorteado, austero, complexo e sentimentalmente dilacerado, assume o exigente protagonismo familiar no período que se segue ao acidente de barco que deixa a sua mulher em coma profundo. Arrependido da distância afetiva a que recentemente submetera o seu casamento e o seu Continue reading

“Crazy Horse”, de Frederick Wiseman

Ao cineasta Frederick Wiseman corresponde um dos mais nobres e decisivos capítulos da história do documentário no cinema das últimas décadas. Como homem profundamente sábio que é, tem sido o arauto de um ângulo de observação da sociedade contemporânea – subtil nos seus meios mas incisivo nos seus fins, e pleno de uma profunda consciência artística – que tendencialmente toma como matéria base de ação o seu centro operacional estratégico: as pessoas, mais ou menos comuns, e a mundaneidade dos seus trabalhos e rotinas. Desde há mais de quatro décadas que Wiseman põe a nú nas suas películas uma série de Continue reading

“Road to nowhere – Sem destino”, de Monte Hellman

É um filme que (con)funde realidade e ficção, intriga e especulação, suicídio e homicídio, cinema e amor (cinema com base num amor e amor com base no cinema), uma atriz demasiado parecida com a personagem que vai interpretar e diversas outras rimas que transformam a poesia abstrata da sua ação no mais fascinante puzzle cinematográfico estreado por cá em 2011 (nivelando-se, nessa perspetiva, apenas com o igualmente histórico “A árvore da vida”, de Terrence Malick). Ou, seguindo a citação do próprio Monte Hellman impressa na contracapa do dvd, “Este filme é um enigma impossível. Cabe a cada espetador resolvê-lo sozinho.” O realizador, que completa em julho 80 anos, concebe nesta sua primeira longa metragem em mais de duas décadas um filme dentro de outro filme, fulgurante súmula das Continue reading

“Vénus negra”, de Abdellatif Kechiche

Já tinha reunido o respeito e a profunda admiração de uma fatia significativa da comunidade cinéfila portuguesa com os espantosos “A esquiva” (“L’esquive”, 2003) e “O segredo de um cuscuz” (“La graine et le mulet”, 2007), mas foi com este “Vénus negra” que o realizador de origem tunisina Abdellatif Kechiche passou a integrar de pleno direito um restrito grupo de nomes que, em anos recentes, tem elevado o cinema de autor a um patamar de exigência artística extrema. Estreada entre nós em agosto passado e recentemente convertida para dvd, esta é a chocante história verídica de uma empregada doméstica hotentote trazida pelo seu patrão, há cerca de 200 anos, da sua casa na África do Sul para a Europa (Londres e Paris), e da exploração desumana a que este a submete, exibindo o seu corpo Continue reading

“Martha Marcy May Marlene”, de Sean Durkin

Que ânimo nos dá começar um ano de estreias cinematográficas com uma surpresa deste calibre… “Martha Marcy May Marlene” é um drama psicológico de raro fulgor artístico e dramático, que encontra a sua protagonista no momento da fuga à tirania social e sexual de uma seita que representou a única realidade da sua vida no par de anos anterior (onde assumia o papel de Marcy May e, pontualmente, de Marlene) e o duro choque emocional enfatizado pelo regresso ao seu núcleo familiar (onde é e sempre foi Martha). Tentando gerir os diferentes níveis de desconforto dos dois cenários, Martha vagueia penosamente entre memórias e traumas, entre pesadelos e a desamparada recuperação moral e afetiva que tenta empreender. Um thriller que assinala estreias ao mais alto nível da protagonista – uma Elizabeth Olsen em Continue reading

“Meia noite em Paris”, de Woody Allen


A 41ª longa metragem dirigida por Woody Allen encontra o seu enredo na Cidade Luz: Rachel McAdams (Inez) e Owen Wilson (Gil) são um casal de noivos americanos de visita à capital francesa. Irreversivelmente conquistado pelo romantismo nostálgico e pela máquina do tempo simbólica que ali experimenta – que o transporta primeiramente para os anos 20 e, depois, para a belle époque -, e sentindo a incompreensão de Inez face a esta sua epifania existencial, Gil acaba por pôr a relação e toda a sua vida nos Estados Unidos em perspetiva, optando pela permanência naquele tempo e lugar onde realmente se sente em plena comunhão com os seus sonhos. Uma singela mas muito sólida comédia romântica, dotada de um fôlego que não abunda na obra recente de Allen, e particularmente assinalável num Continue reading