Category Archives: Cinema

“O rebelde salvador”, de Marc Forster

Pouco tempo depois de sair da prisão, um ex-toxicodependente alcoólatra assume um caminho de redenção radicalmente novo para a sua vida: converte-se à religião e dedica-se literalmente de corpo e alma a causas espirituais e sociais que considera que só podem vingar com a sua fé e trabalho, sejam elas na rua da pequena cidade do estado do Minnesota onde mora ou na zona de fronteira entre o Sudão e o Uganda. A história verídica de Sam Childers e da sua peculiar abordagem à defesa dos direitos humanos e das crianças num dos terrenos mais devastados pela miséria – económica e humana – do continente africano, contada agora num retrato crú e cruel, incómodo e inconformado de uma realidade que se apodera da nossa sensibilidade humanista em cada minuto de filme, em larga medida graças ao extraordinário trabalho de atores, de fotografia e de som. Mais uma louvável inflexão temática e formal de Marc Forster, realizador que já nos havia entregue películas tão distintas (no duplo sentido…) como “Depois do ódio” (“Monster’s ball”, 2001), “À procura da Terra do Nunca” (“Finding Neverland”, 2004), “Contado ninguém acredita” (“Stranger than fiction”, 2006) ou “O menino de Cabul” (“The kite runner”, 2007).  Continue reading

“O deus da carnificina”, de Roman Polanski

Tentando alcançar um desfecho amistoso para o conflito gerado entre os respetivos filhos pré-adolescentes, que se saldara em dentes partidos e pequenas escoriações afins num deles, dois casais encontram-se no apartamento da família da vítima. Contudo, com o desenrolar do processo diplomático, o comportamento dos quatro acaba por se aproximar gradualmente do das crianças, no seu crescente descontrole, desrespeito e agressividade. Uma comédia negra de altíssimo nível dramático sobre as aparências e seus enganos, filmada com uma destreza exemplar por Roman Polanski, a partir de uma obra para teatro da dramaturga francesa Yasmina Reza, igualmente responsável pelo argumento. Mas, mais do que se limitar a transferir uma peça de teatro para o léxico cinematográfico, Polanski – conjuntamente com os assinaláveis trabalhos de Kate Winslet, Jodie Foster, John C. Reilly e Christoph Waltz – cria neste “O deus da carnificina” um cenário paradigmático de reflexão sobre os modos da sociedade que construímos, pensados a partir da mais relevante pequena célula de relacionamento social: um casal (aliás, dois…), uma família (aliás, duas…). Um filme que fecha com chave de ouro o calendário de estreias cinematográficas portuguesas neste 2011 também já tão moribundo. Continue reading

“Short movies”, de Gonçalo M. Tavares

No primeiro volume de “Short movies”, o 31º caderno do autor, aparecem cerca de 70 guiões para histórias incompletas. A numeração na escrita é importante, mas o seu movimento é mais ainda. A solução do grande plano ou do plano fechado está na linha do olhar de quem o lê e não no gesto iniciático de quem o escreveu. Algumas das notas para estes movimentos perpétuos surgiram nos recantos de jornais. Como diria Gonçalo M. Tavares, esses cantos são agora recontados. Continue reading

“Sentimento” e “Noites brancas”, de Luchino Visconti

Na década que abrira com o superlativo “Belíssima” (“Bellissima”, 1951) para fechar com o igualmente histórico “Rocco e seus irmãos” (“Rocco e i suoi fratelli”, 1960), Luchino Visconti elevou ainda a sua verve autoral a níveis memoráveis nestas duas longas metragens que agora chegam ao mercado português de dvd pela mão atenta e sensível da distribuidora Alambique: “Sentimento” (“Senso”, 1954) e “Noites brancas” (“Le notti bianche”, 1957). O primeiro, tem como cenário Veneza em 1866, ou seja, durante uma das ocupações austríacas de que foi alvo. Resume a história de uma paixão – desprovida de qualquer solidez ou racionalidade – de uma condessa italiana por um oficial austríaco, por quem deita tudo a perder, traindo até o seu país. Por seu lado, “Noites brancas” é uma obra que não é tão citada junto das essenciais de Visconti como é “Sentimento”, mas que não deixa de ser tão ou mais arrebatadora. Extraordinário momento do (neo)realismo viscontiano, testemunha a breve história comum de dois solitários com interesses afetivos que gradualmente vão convergindo – até ao ponto em que se tocam apenas para, de imediato, se afastarem em definitivo. A matéria narrativa parte do conto homónimo escrito na juventude (1848) de Fyodor Dostoyevsky. Os rigorosos desempenhos de Marcello Mastroianni e Maria Schell, a música de Nino Rota e a vibrante fotografia a preto e branco (particularmente enfatizada na versão restaurada que aqui se apresenta) fazem o resto. Continue reading

“Há festa na aldeia”, “As férias do Sr. Hulot”, “O meu tio” e “Vida moderna”, de Jacques Tati

Não há na história da comédia francesa outro autor com o seu estatuto criativo. Jacques Tati é rigorosamente singular na sua perspetiva do absurdo dos nossos quotidianos. Jacques Tati é um génio – e para atingir esse patamar de absoluta exceção chegaram-lhe as cinco únicas longas metragens que realizou num período de quase 25 anos, entre finais dos anos 40 e o início dos anos 70 do século passado. Quatro delas, as quatro primeiras, mereceram recentemente uma cuidada reedição em dvd (com importantes extras, nomeadamente algumas das suas mais espantosas curtas metragens) e terão, entre hoje e a próxima terça feira, direito a algumas sessões em grande formato no lisboeta Espaço Nimas. Chamam-se “Há festa na aldeia”, “As férias do Sr. Hulot”, “O meu tio” e “Vida moderna”, e – na sala de cinema ou em casa – são um dos mais maravilhosos presentes que a Atalanta nos poderia oferecer neste Natal. Continue reading

“O miúdo da bicicleta”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne


Este “O miúdo da bicicleta” é uma assinalável tour de force dramática de Thomas Doret, na pele de um rapaz de 11 anos em desesperada luta interior por garantir uma proximidade constante dos dois símbolos absolutos da sua segurança emocional: a sua bicicleta e o seu pai. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne reforçam as idiossincrasias da sua abordagem realista às histórias que escolhem filmar, trabalhando novamente – mas sempre como se fosse a primeira vez – em redor de uma criança inadaptada capaz de conter em si tanto do nervo e da energia da sociedade que habitamos. Continue reading

“Offside – Fora de jogo” e “Isto não é um filme”, de Jafar Panahi

Teve um par de filmes discretamente estreados em Portugal no início da década passada, mas podemos afirmar que a obra e biografia recente do singular realizador iraniano Jafar Panahi só chegou com o devido impacto a um público cinéfilo português realmente atento tardiamente (há um par de meses) e, de certa forma, pelos motivos “errados”. Todo o processo que conduziu à sua condenação a seis anos de prisão e a 20 anos sem poder filmar, pelas crescentes inconveniências políticas que contaminavam a sua filmografia, gerou uma onda de indignação e empatia de diversos setores da sociedade e, em particular, das áreas de influência do cinema e dos direitos humanos. Agora, graças à distribuidora Alambique, faz-se um pouco de justiça – pelo menos ao trabalho de Panahi – ao serem viabilizadas as estreias e o lançamento em dvd de “Isto não é um filme” (2010) e da sua longa metragem de 2006, “Offside – Fora de jogo”. Enquanto aguardava em prisão domiciliária pela confirmação da sua sentença, e na impossibilidade legal de filmar, convidou o amigo e colega de profissão Mojtaba Mirtahmasb para rodar no seu apartamento um documento cinematográfico que nasce de uma perspetiva específica dessa clausura, que não deixa de conter um misto de ironia, provocação e profunda reflexão em redor do drama que vive. O genérico final nomeia o resultado da aventura: “Isto não é um filme”, seguido de “Uma tentativa de Jafar Panahi & Mojtaba Mirtahmasb” (“An effort by…”) e de um “Dedicado aos cineastas iranianos”. Um capítulo único na história do cinema e da sociedade contemporânea. Para compreender um pouco melhor os motivos que conduziram a este escandaloso desfecho, torna-se igualmente importante conhecer “Offside – Fora de jogo”, ficção construída a partir das elaboradas estratégias que um número cada vez maior de mulheres tem que adotar para conseguir assistir a jogos de futebol nos estádios do Irão (onde o seu acesso é interdito). Duas obras vitais para a sétima arte de vocação mais livre e política da atualidade. Como é cantado na música que se ouve a fechar “Offside – Fora de jogo”, “Oh Irão, nosso país precioso / A  tua terra é a nascente da arte…”  Continue reading