“Austerlitz”, de W. G. Sebald

“Ao princípio, o que mais me desconcertou foi que não conseguia encontrar qualquer significado para a palavra ‘Austerlitz’”. Entre a épica batalha de Napoleão e a gare de comboios parisiense, o protagonista do último romance de W. G. Sebald (publicado em 2001, semanas antes da sua precoce morte) interroga-se nesta narrativa ininterrupta sobre as suas origens e o seu “passado desconhecido”, constantemente evitado dada a sensação de obscuridade que sobre ele sempre pairou. O segundo tomo da coleção da Quetzal dedicada à obra do escritor germânico (que surge na sequência do seu debutante “Do natural”, publicado há poucos meses) é um cruzamento de monólogos introspetivos, em que as fronteiras do género ficcional são brilhantemente desafiadas: a prosa, a autobiografia e a reflexão metafísico-filosófica são os territórios literários por onde circulam as rememorações fragmentadas de um narrador anónimo e de Jacques Austerlitz, professor de história de arte num instituto londrino. De um encontro fortuito em Antuérpia nasce uma amizade que conduz à partilha das recordações atormentadas de Austerlitz, da sua infeliz infância (separado dos pais, criado por um vigário, e com uma educação austera), passando pela adolescência num colégio interno, até aos devaneios notívagos pela Londres mais soturna ou à demanda pela sua identidade destroçada (em Praga, na Alemanha e numa Paris onde procura, no cemitério de Montparnasse ou nos arquivos da biblioteca, o registo dos seus próprios destroços). A jornada geográfica, biográfica e ontológica de Austerlitz é ainda visual, sobretudo fotográfica, sendo este livro de Sebald patenteado por inquietantes, sombrias e deslumbrantes imagens que atuam como pano de fundo para a incursão reminiscente da personagem cimeira que, na qualidade de leitores, acompanhamos e escutamos de perto. “Desoladas paisagens belgas”, “estações de caminhos de ferro e viadutos do metro de Paris” ou o “palmar do Jardin des Plantes” são apenas alguns dos muitos artefactos de um presente gravado por “uma velha Ensign com fole telescópico”, que se inscrevem como marca de um tempo e de um espaço que Austerlitz procura reconstruir. Esse tempo e esse espaço são simultaneamente o do advento do nacional-socialismo e da eclosão da II Guerra Mundial, que revisita como sofredor indireto da monolítica “fealdade e da força cega”, e que nos surgem descritas com uma desconcertante acurácia psicológica. Os grandes temas sebaldianos – a melancolia, a solidão, a memória, o tempo – perpassam em cada linha desta sua derradeira obra prima, penetrando o autor nos mais subliminares patamares da consciência, quer daquele que narra, quer daquele que lê. As suas considerações encontram aqui um intermitente jogo de forças contra o esquecimento, a perda e a passagem do tempo, que só um escritor com a clareza intemporal de Sebald seria capaz de legar: “sempre resisti ao poder do tempo (…), sempre me fechei à chamada atualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontrar à chegada tudo como dantes”.

livro “Austerlitz”, de W. G. Sebald
Quetzal, 2012

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