Thurston Moore ao vivo em Guimarães e em Lisboa

A alma, voz e guitarra por detrás dos Sonic Youth vem a Portugal apresentar o seu mais recente álbum “Demolished thoughts”, de 2011, um magnífico trabalho de estúdio produzido por Beck. Este é o quarto disco a solo de Thurston Moore, num registo marcadamente distinto do rock iconoclasta da sua banda, mas que dá continuidade a um trilho já traçado sozinho no álbum que apresentara em 2007, “Trees outside the academy”. “Demolished thoughts” é uma reservada e despretensiosa incursão Continue reading

“A escavação”, de Andrei Platónov

capa andrei platonov a escavacao

Memórias da Revolução de Outubro por um dos seus observadores mais críticos, o russo Andrei Platónov (1899 / 1951), autor cuja obra permanecia até aqui inédita no mercado livreiro português. Um romance distópico que esperou sete décadas para Continue reading

“O mundo no arame”, de Rainer Werner Fassbinder

Depois da II Guerra Mundial, da ameaça nuclear e dos grandes avanços tecnológicos, o cinema, se já pensara a ideia de homem-máquina nos seus alvores (de Georges Méliès a Fritz Lang, que o fizera de forma sublime em “Metropolis”), após essa experiência limite do terror, volta a interrogar-se sobre as fronteiras do progresso e as suas implicações em filmes como “2001 – Odisseia no espaço” (Stanley Kubrick, 1968), “Laranja mecânica” (Stanley Kubrick, 1971), “Solaris” (Andrei Tarkovsky, 1972) ou “Blade runner” (Ridley Scott, 1982). É neste plano que parece, em grande medida, enquadrar-se também “O mundo no arame”, longa metragem de 1973 de um dos grandes realizadores alemães do pós-guerra, Rainer Werner Fassbinder, a partir de agora disponível em dvd, na espantosa edição restaurada que já tinha iluminado as salas de cinema portuguesas no final do ano passado. Baseado no romance “Simulacron 3”, de Daniel F. Galouye, este é um filme entre a ficção científica, o drama policial e a interrogação filosófico-ontológica. Fred Stiller, o protagonista, é o responsável por um projeto de informática num grande instituto de cibernética que está a desenvolver uma réplica virtual do mundo, com simulacros de seres humanos. O seu antecessor morreu misteriosamente, deixando um segredo em Continue reading

“Quando o diabo reza”, de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho faz uma incursão na editora Tinta da China, onde publica um dos seus “cronovelemas”, neologismo firmado pelo autor, indicando uma matéria narrativa híbrida que se situa entre a crónica, o conto e a novela. Se numerarmos essas histórias, o presente livro talvez seja o seu quarto cronovelema – sendo o primeiro, talvez, a obra “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto” (Caminho, 1995). No entanto, a presente saga de três meliantes que pretendem roubar um velho dono de Continue reading

“Extremamente alto e incrivelmente perto”, de Jonathan Safran Foer, e “Extremamente alto, incrivelmente perto”, de Stephen Daldry

capa jonathan safran foer extremamente alto e incrivelmente perto

Originalmente publicado em 2005, este livro regressa à ribalta graças à adaptação cinematográfica de Stephen Daldry, estreada ontem em Portugal, com o jovem Thomas Horn, Sandra Bullock e Tom Hanks nos principais papéis. A atração inicial da obra de Jonathan Safran Foer surge graças à Continue reading

“Vergonha”, de Steve McQueen

Na sua primeira longa metragem, o realizador inglês Steve McQueen versou sobre a “Fome” (“Hunger”, 2008). Dando continuidade à linhagem daquela que parece ser uma nomenclatura das carências (e sobretudo quando prepara um novo filme sobre a escravatura), chega-nos às salas de cinema “Vergonha”, um retrato arrebatador, que tem tanto de poético quanto de álgido, de um homem radicalmente só na compulsão do seu vício. Brandon (Michael Fassbender numa interpretação absolutamente brilhante) é um atraente executivo que vive em Nova Iorque, visivelmente bem sucedido, mas que esconde por detrás dessa máscara uma aterradora dependência do sexo. Obcecado pelo prazer físico mais Continue reading

Katinka Bock e Michael E. Smith na Culturgest, Lisboa

De 25 de fevereiro a 13 de maio, as Galerias 1 e 2 da Culturgest, Lisboa, recebem mostras de dois artistas plásticos contemporâneos que se aproximam conceptualmente pelo recolhimento introspetivo que convocam e pelo modo como perturbam o espaço em que os seus materiais, ora manipulados, ora violados, se expõem. Michael E. Smith desfigura objetos do quotidiano, achados urbanos, e explora de forma extremada o caráter irreparável da ruína e do abandono dos corpos. Cresceu e viveu em Detroit, uma cidade degradada, assolada pela pobreza e pela falência dos grandes grupos da indústria, o que se reflete nas suas peças e esculturas, de tonalidades monocromáticas, violentamente saturadas, massacradas pela catástrofe e agora perdidas no imenso espaço da galeria. Numa linha programática não muito distante, e cujas afinidades o curador Miguel Wandschneider averigua ao propor uma exposição paralela, a alemã Katinka Bock procura, em “Personne”, combinar espaço, matéria e pensamento de modo condensado e subtil. Trabalha com Continue reading