Antonio Tabucchi [1943 / 2012]

Nasceu numa pequena aldeia da Toscana, em 1943, mas o seu coração dividiu-se entre a sua pátria de origem e a pátria da língua portuguesa. A sua vida fez-se entre a viagem, a imaginação e o sonho, a literatura, que assinou e ensinou. Em Paris, quando jovem, apaixonou-se pela “Tabacaria” de Álvaro de Campos, que o trouxe a Portugal, no final dos anos 60. Fascinou-se por Lisboa e pela obra de Pessoa, conheceu Alexandre O’Neill e Maria José de Lencastre, com quem veio a casar e a Continue reading

Joe McPhee ao vivo na Kolovrat 79, Lisboa

O sótão dessa crucial loja da contemporaneidade lisboeta que é a Kolovrat 79 recebe hoje à noite a fulgurância sonora e discursiva de Joe McPhee, saxofonista e preponderante teórico do free jazz enquanto mensagem sociopolítica, na senda de nomes maiores como os de John Coltrane, Ornette Coleman ou Albert Ayler, aos quais indubitavelmente merece ser associado. Na sala do Príncipe Real, far-se-á acompanhar de outras duas figuras de inequívoca relevância da história do jazz moderno em Continue reading

“Nos idos de março”, de George Clooney

No ano passado, na quarta película com a sua assinatura autoral, George Clooney presenteou-nos com mais um exemplar drama político, “Nos idos de março”, que nos chega agora às mãos em dvd. Depois de “Confissões de uma mente perigosa”, “Boa noite, e boa sorte” e “Jogo sujo”, Clooney encarna o governador Michael Morris, um dos candidatos democratas em voltas ainda primárias para a presidência dos Estados Unidos da América (assunto tão central na agenda mediática dos dias que agora correm…). A ação do filme decorre durante a campanha em Ohio, porque “quem ganha Ohio, ganha a nação”, e a trama Continue reading

Feist ao vivo em Lisboa e no Porto

Passaram quatro anos desde que Leslie Feist deu ao mundo “The reminder”, que jamais deixaremos de associar a temas como “My moon, my man”, “I feel it all” ou “1, 2, 3, 4”. Passou demasiado tempo, mas, em 2011, Feist voltou, deitada numa árvore em forma de F, com “Metals”, um álbum muito diferente dos antecessores, mais metálico, como o nome, e mais negro, como a substância. Feist, também ela, parece ter mudado. “Anti-pioneer”, diz-se, provavelmente precisou de regressar a casa para Continue reading

“Na floresta da preguiça”, de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud

A lista de autores e artistas, oriundos de diversos campos estéticos, que criaram extraordinárias e inesperadas obras em formato pop up, com ou sem texto, é já extensa e respeitável. Os fãs do livro pop up organizam-se em clubes e sociedades (como The Movable Book Society, fundada pela bibliotecária Ann R. Montanaro, em 1992). O livro pop up pode finalmente constituir, mesmo em meandros académicos, um tema de investigação legítimo e interessante. Atualmente, a capacidade de reinvenção material do Continue reading

“A guerra acabou”, de Alain Resnais

Em 1939, Franco anunciou que a Guerra Civil Espanhola tinha acabado. Porém, uma outra começou – uma ditadura que havia de vigorar por quase 40 anos. Alain Resnais faz da resistência espanhola tema de “A guerra acabou” (num trabalho conjunto com Jorge Semprún, escritor, político e militante da resistência do país vizinho), não para esboçar um seu trivial retrato, mas para, mediante uma esmerada narrativa, nos dar a ver um revolucionário angustiado com o rumo do seu país. Diego (Yves Montand), um dos líderes clandestinos do partido comunista espanhol, vê-se obrigado a regressar a Paris quando percebe que um dos seus camaradas está em perigo. Na fronteira, é detido, mas a preciosa ajuda da jovem Nadine (politicamente solidária com a causa espanhola e com quem se viria a envolver amorosamente) permite que Continue reading

“Muriel ou o tempo de um regresso”, de Alain Resnais

Quando o passado irrompe no presente, instaura-se o caos – sobretudo se esse passado trouxer traumas, desilusões e mágoas. “Muriel ou o tempo de um regresso” é uma estrondosa e perturbadora reflexão de Alain Resnais sobre um passado que regressa ou uma memória dolorosa que insiste em não partir. Resnais é, por excelência, o cineasta do tempo e da memória e desse jogo que se define entre uma suposta linearidade cronológica e a vivência do tempo própria de cada personagem. Em “Muriel ou o tempo de um regresso”, cada um dos protagonistas vive numa Continue reading