“A guerra acabou”, de Alain Resnais

Em 1939, Franco anunciou que a Guerra Civil Espanhola tinha acabado. Porém, uma outra começou – uma ditadura que havia de vigorar por quase 40 anos. Alain Resnais faz da resistência espanhola tema de “A guerra acabou” (num trabalho conjunto com Jorge Semprún, escritor, político e militante da resistência do país vizinho), não para esboçar um seu trivial retrato, mas para, mediante uma esmerada narrativa, nos dar a ver um revolucionário angustiado com o rumo do seu país. Diego (Yves Montand), um dos líderes clandestinos do partido comunista espanhol, vê-se obrigado a regressar a Paris quando percebe que um dos seus camaradas está em perigo. Na fronteira, é detido, mas a preciosa ajuda da jovem Nadine (politicamente solidária com a causa espanhola e com quem se viria a envolver amorosamente) permite que volte a Paris, onde se reencontrará com o seu grande amor, Marianne (interpretada por uma das figuras femininas de Ingmar Bergman, Ingrid Thulin). E é a partir da capital francesa que organizará, com o restante grupo de exilados políticos, as movimentações revolucionárias e a primeira grande greve geral espanhola. Mas, em Paris, vemos um herói político em crise: por um lado, faz, como Lenine, da paciência e da ironia as suas virtudes, vivendo atormentado com o fantasma de que “a Espanha já não é o sonho de 36, mas a realidade de 65”; por outro, parece descrente de que a sua luta possa ainda vir a surtir qualquer efeito. Resnais filma a cadência dos pensamentos de Diego, pelos meticulosos e tocantes flash-forwards narrativos que anteveem aquilo que momentos depois viverá: ora a reunião nas periferias de Paris, ora o encontro com Nadine, “a estrelinha que o protege” de ser apanhado pela polícia. Para além de uma incursão dramática sobre a vida de um homem que não sabe ser senão um revolucionário, e de uma brilhante reflexão sobre a resistência a um regime fascista, “A guerra acabou” é também uma obra em que Resnais continua a filmar de forma sublime o corpo e os afetos, como o fizera meia dúzia de anos antes no virtualmente insuperável “Hiroshima, meu amor”. Tal como “Muriel ou o tempo de um regresso”, “A guerra acabou” é um dos mais inesperados e fundamentais dvd’s publicados por cá nos últimos meses.

dvd “A guerra acabou” [“La guerre est finie”], de Alain Resnais, com Yves Montand, Ingrid Thulin,…
Clap Filmes, 1966 / 2011

2 responses to ““A guerra acabou”, de Alain Resnais

  1. A propósito deste tema, tomo a liberdade de falar de um livro de Leonardo Padura, “O homem que gostava de cães”, cujo personagem principal, motivado também por uma grande paixão, a tudo se dispõe em nome de um ideal. Com a acção a decorrer desde os anos 70, entre Cuba e Espanha, até ao princípio do séc. XXI, testemunhamos um história repleta de missões secretas, com direito a nomes fictícios e a treinos especiais. Um dos meus autores preferidos! http://www.portoeditora.pt/imprensa/noticia/ver/o-trabalho-mais-poderoso-de-padura?id=1398

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