“minhamãe”, de Eugénio Roda e Gémeo Luís

“minhamãe” destaca-se pela originalidade, plural e equilibrada, efetivamente partilhada e partilhável. A dimensão universal da poética da maternidade é escrita, ilustrada, traduzida, produzida por uma equipa internacional e de intenção internacionalizante. A dupla Gémeo Luís (pseudónimo de Luís Mendonça) e Eugénio Roda (pseudónimo de Emílio Remelhe) destaca-se no panorama artístico português, não só pela originalidade da sua linguagem gráfica e articulação textual, como pelos Continue reading

“Era uma vez na Anatólia”, de Nuri Bilge Ceylan

O título do último filme do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan poderia inicialmente remeter-nos para o clássico de Sergio Leone, “Era uma vez no Oeste”. Mas do western spaghetti do italiano, “Era uma vez na Anatólia” parece apenas aproximar-se através das paisagens áridas da Turquia rural que Ceylan filma e, num plano de primeira ordem (e com notável sensibilidade estética), explora. Um grupo de polícias, um médico legista, um procurador jurídico, um par de coveiros e dois alegados homicidas procuram um cadáver, a vítima de um brutal crime. O suspeito principal, que sabemos pela narrativa já em curso ter confessado o delito, não se recorda do local onde terá enterrado o corpo, pelo que os homens percorrem as estepes da Anatólia até encontrarem e exumarem o morto. A busca e a viagem pela Turquia asiática é paralela a um confronto com a vida e a experiência limite da morte (a desse corpo desenterrado e a da sua fria autópsia, que Ceylan filma ora com ironia, ora com lugubridade). Com o corpo exumado, o realizador examina os planos de Continue reading

Fernando Lopes [1935 / 2012]

Generoso cineasta das impressões, do tempo e dos afetos, Fernando Lopes (28 dezembro 1935 / 2 maio 2012) foi, como dizia, um “realizador improvável”. Cresceu numa pequena aldeia do interior do país (à qual regressou, em 1976, no singular “Nós por cá todos bem”, um misto de musical, ficção e documentário etnográfico), mas foi em Lisboa que descobriu que queria ser artesão dos sons e das imagens. Frequentou os cineclubes, partiu para Londres, de seguida para os Estados Unidos, onde foi estagiário de Nicholas Ray, e regressou com todo o fulgor a Portugal. Em 1964, filmou, muito influenciado pela estética da nouvelle vague, “Belarmino”, um dos marcos centrais da cinematografia nacional, e uma espécie de Continue reading

“Undun”, dos The Roots

“Undun” é a passagem de um homem a uma memória. “Undun”, que sintomaticamente soa a “undone”, é uma reflexão de extrema complexidade lírica e musical sobre a personagem Redford Stevens, um jovem que cresce no meio urbano da pobreza e que, obrigado a lutar pela sua sobrevivência, envereda pelo caminho do crime, morrendo precocemente aos 25 anos. O tema é, aparentemente, um típico tópico de hip hop, mas o coletivo aborda-o com singular subtileza e inteligência. Não há em “Undun” um elogio a um gangster ou a um mártir, mas um verdadeiro movimento introspetivo e retrospetivo (uma narrativa invertida, que começa na morte e acaba no nascimento). A maturidade dos The Roots espelha-se no modo como contam a trágica história de Redford, inspirada num tema de Sufjan Stevens com o seu nome, gravação original do Continue reading

“James e o pêssego gigante” e “Matilda”, de Roald Dahl e Quentin Blake

Dois clássicos imperdíveis de Roald Dahl, a redescobrir nestas recentes edições da Civilização: “James e o pêssego gigante” (originalmente publicado em 1961) e “Matilda” (datado de 1988, dois anos antes da morte de Dahl). O charme intemporal da escrita do autor de “Charlie e a fábrica de chocolate” (que, no ano passado, inaugurou esta coleção da Civilização) e a cuidadosa escolha dos protagonistas destas aventuras (mais ou menos reais ou totalmente inverosímeis) fazem de “James e o pêssego gigante” e de “Matilda” narrativas que nunca passam de moda: tanto James como Matilda são crianças, pequenas e solitárias, aparentemente vulneráveis, vítimas de Continue reading

Matana Roberts ao vivo em Lisboa e no Porto

Matana Roberts – saxofonista, vocalista, compositora e artista conceptual – experimentou no ano passado, com a obra prima “Coin Coin, chapter one – Gens de couleur libres”, reequacionar profundamente os limites das imagens e das impressões reveladas pela notação musical e as potencialidades da sua ressonância emocional, num álbum dedicado à história da escrava liberta Marie Thérèse “Coincoin”, que fundou a primeira comunidade religiosa de negros livres. Mas o projeto de Matana é ainda mais ambicioso e épico do que isso, e “Gens de couleur libres” é apenas o primeiro capítulo (de 12 previstos) de uma missão que Continue reading

Indie Lisboa ’12

De 26 de abril a 6 de maio, a Culturgest, o Cinema São Jorge e o Cinema Londres serão palco de mais uma edição do Indie Lisboa. Este ano, o festival dará destaque às novas linguagens do cinema suíço, numa secção que lhe é especialmente dedicada: “Um bando à parte” faz alusão à Bande À Parte Films (um nome que, por sua vez, homenageia o mestre Jean-Luc Godard), produtora fundada por Ursula Meier (realizadora de “Home – Lar, doce lar”), cujos trabalhos o público português terá oportunidade de ver, pela primeira vez, numa retrospetiva transversal. Em paralelo, celebram-se os 50 anos do Festival de Viena com cinco décadas resumidas em cinco filmes, entre eles “O último de Inglaterra”, de Derek Jarman, e “Cuidado com essa puta sagrada”, de Rainer W. Fassbinder. Mas o cartaz faz-se igualmente de outros grandes nomes do cinema contemporâneo, com projeções das Continue reading