“Quando tudo está perdido”, de J.C. Chandor

j c chandor all is lost

Com apenas duas longas-metragens, pode dizer-se que J. C. Chandor tem já uma essencial linha de força a definir o seu universo criativo: o espaço da ação, física ou conceptual, revela-se potencialmente infinito. Assim, em “Margin call” (“O dia antes do fim”, 2011), Chandor encenava as atribulações iniciais da atual crise financeira, fazendo-nos pressentir a assustadora paisagem virtual da circulação do dinheiro. Agora, com este “All is lost”, consegue refazer uma matriz minimalista das histórias de Continue reading

“Filomena”, de Stephen Frears

stephen frears philomena

Stephen Frears, cineasta do fausto de Hollywood (“Ligações perigosas”, 1988), mas sobretudo de uma pulsão realista visceralmente britânica (“A minha bela lavandaria”, 1985), mantém-se fiel às suas origens. A começar pela BBC, onde iniciou a sua carreira na década de 70 — “Filomena” é uma produção do canal de televisão que mantém a sua especificidade cinematográfica, de raiz melodramática. As suas peripécias — uma velha senhora (Judi Dench) que procura reencontrar o filho, meio século depois de o ter “cedido” para Continue reading

“Atlas do corpo e da imaginação”, de Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas

capa goncalo m tavares atlas do corpo e da imaginacao

Geralmente associamos o termo “atlas” à geografia, a mapas, cartas e gráficos. Vêm-nos depois à cabeça, decerto, os atlas do corpo humano e, muito provavelmente, atlas linguísticos e atlas zoológicos. Mas o vocábulo “atlas” designa também a primeira vértebra cervical, na anatomia humana, aquela que sustem o crânio, evocando assim o gigante homónimo da mitologia, o titã Atlas, condenado por Zeus a suster o céu sobre os ombros. Um dos maiores fascínios deste “Atlas do corpo e da imaginação – Teoria, fragmentos e imagens”, agora editado pela Caminho, reside no facto de permitir que nele se entre por onde se quiser (e dele, do mesmo modo, se saia – embora, diga-se, tal nunca mais venha, muito provavelmente, a acontecer…). Posto isto, avise-se o incauto leitor que se avizinham as Continue reading

“Ninfomaníaca, vol. 2″, de Lars von Trier

lars von trier nymphomaniac volume 2

Estreada a segunda parte da odisseia sexual de Lars von Trier, confirma-se que há qualquer coisa de gratuito e também (peso as palavras) de doentio no facto de este ser um filme socialmente consagrado como uma apoteose do “visível”. O subtexto que o tem acompanhado é qualquer coisa como: “Ninfomaníaca” dá a ver coisas nunca vistas… Cruel ironia: a pornografia reinante, todos os dias sancionada pelas práticas de “entretenimento” do “Big brother” e Continue reading

“Linguagem e silêncio”, de George Steiner

capa george steiner linguagem e silencio

Poucos pensadores contemporâneos conhecem as intermitências da palavra como George Steiner. Depois das nove publicações do crítico contabilizadas até ao anterior “Sobre a dificuldade e outros ensaios”, a Gradiva apresenta-nos agora, numa tradução de Miguel Serras Pereira, “Linguagem e silêncio – Ensaios sobre a literatura, a linguagem e o inumano”, uma coletânea de textos ensaísticos e críticos que contempla algumas das temáticas que distinguem o percurso do autor. A sua lucidez permite-lhe encarar a linguagem como potencial agente do Continue reading

“Golpada americana”, de David O. Russell

david o russell american hustle

Curiosa evidência: se pensarmos em alguns dos melhores filmes americanos lançados em Portugal nas últimas semanas — “O lobo de Wall Street”, “Lovelace”, “12 anos escravo”, “O Clube de Dallas” e, agora, “Golpada americana” —, não podemos deixar de notar o facto de todos eles terem personagens verídicas como ponto de partida. A coincidência merece ser sublinhada. E não exatamente por causa desse naturalismo pueril que, todos os dias, nos é vendido pelas televisões; antes porque por todos estes filmes perpassa uma Continue reading

“Moloch”, “Taurus”, “O sol” e “Fausto”, de Aleksandr Sokurov

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O que define a “Tetralogia do poder”, de Aleksandr Sokurov, não é um princípio de reconstituição histórica. Aliás, mesmo que passemos em claro a discussão de tal princípio (hoje em dia frequentemente contaminado pelo naturalismo simplista de muitas “reconstituições” televisivas), o mais recente destes quatro filmes coloca-se, desde logo, fora do calendário das Continue reading