Category Archives: Cinema

“Uma separação”, de Asghar Farhadi

“Uma separação”, o quinto filme do iraniano Asghar Farhadi – que recebeu o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, o Globo de Ouro na mesma categoria e o Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que hoje chega ao mercado português do dvd -, granjeou o respeito da comunidade internacional e do governo iraniano pelo trabalho do realizador. Um filme que é mais uma marcante confirmação do vital nicho do cinema contemporâneo que se vai permitindo em terras persas, sendo o nome de Farhadi digno de ser associado aos de Abbas Kiarostami ou Jafar Panahi. “Uma separação” é um melodrama que, a um primeiro olhar, retrata isso mesmo: uma separação, uma separação de um casal. Numa entrevista ao realizador, que acompanha, em extra, a edição em dvd, Farhadi refere que procurou, no princípio do filme, pôr em cena o próprio filme – essa separação -, o que não pressupõe, contudo, que esta seja uma narrativa já previamente dada ou fechada. Bem pelo contrário. Se é claro, desde a cena inicial, o tema central do filme, tudo o que realmente daí advém nem sempre o é. Simin (Leila Hatami) é uma mulher da classe média iraniana, professora, que quer Continue reading

“É na terra, não é na lua”, de Gonçalo Tocha

 

“Corvo. Ilha do Corvo. Pleno Oceano Atlântico. Açores.” O novo documentário de Gonçalo Tocha é um diário da vida na mais pequena e, como outros dizem, primitiva ilha do arquipélago, esse lugar que “É na terra, não é na lua”. Na sua segunda longa metragem – depois de “Balaou”, de 2007 -, Tocha dá a ver as emoções do Corvo: anuncia que o seu documento não é uma representação, mas uma imagem, um reflexo de um ilha dentro de si. Tocha faz-se olho e máquina de filmar. Descreve e capta as histórias, os arquivos, os jornais, os mitos da Nossa Senhora dos Milagres que terá dado à costa numa pequena caixa abandonada, “muito lindinha”. Fixa o rosto dos baleeiros e filma o seu diário por entre as malhas de Inês Inêz, que lhe tece o Continue reading

“Nos idos de março”, de George Clooney

No ano passado, na quarta película com a sua assinatura autoral, George Clooney presenteou-nos com mais um exemplar drama político, “Nos idos de março”, que nos chega agora às mãos em dvd. Depois de “Confissões de uma mente perigosa”, “Boa noite, e boa sorte” e “Jogo sujo”, Clooney encarna o governador Michael Morris, um dos candidatos democratas em voltas ainda primárias para a presidência dos Estados Unidos da América (assunto tão central na agenda mediática dos dias que agora correm…). A ação do filme decorre durante a campanha em Ohio, porque “quem ganha Ohio, ganha a nação”, e a trama Continue reading

“A guerra acabou”, de Alain Resnais

Em 1939, Franco anunciou que a Guerra Civil Espanhola tinha acabado. Porém, uma outra começou – uma ditadura que havia de vigorar por quase 40 anos. Alain Resnais faz da resistência espanhola tema de “A guerra acabou” (num trabalho conjunto com Jorge Semprún, escritor, político e militante da resistência do país vizinho), não para esboçar um seu trivial retrato, mas para, mediante uma esmerada narrativa, nos dar a ver um revolucionário angustiado com o rumo do seu país. Diego (Yves Montand), um dos líderes clandestinos do partido comunista espanhol, vê-se obrigado a regressar a Paris quando percebe que um dos seus camaradas está em perigo. Na fronteira, é detido, mas a preciosa ajuda da jovem Nadine (politicamente solidária com a causa espanhola e com quem se viria a envolver amorosamente) permite que Continue reading

“Muriel ou o tempo de um regresso”, de Alain Resnais

Quando o passado irrompe no presente, instaura-se o caos – sobretudo se esse passado trouxer traumas, desilusões e mágoas. “Muriel ou o tempo de um regresso” é uma estrondosa e perturbadora reflexão de Alain Resnais sobre um passado que regressa ou uma memória dolorosa que insiste em não partir. Resnais é, por excelência, o cineasta do tempo e da memória e desse jogo que se define entre uma suposta linearidade cronológica e a vivência do tempo própria de cada personagem. Em “Muriel ou o tempo de um regresso”, cada um dos protagonistas vive numa Continue reading

“O mundo no arame”, de Rainer Werner Fassbinder

Depois da II Guerra Mundial, da ameaça nuclear e dos grandes avanços tecnológicos, o cinema, se já pensara a ideia de homem-máquina nos seus alvores (de Georges Méliès a Fritz Lang, que o fizera de forma sublime em “Metropolis”), após essa experiência limite do terror, volta a interrogar-se sobre as fronteiras do progresso e as suas implicações em filmes como “2001 – Odisseia no espaço” (Stanley Kubrick, 1968), “Laranja mecânica” (Stanley Kubrick, 1971), “Solaris” (Andrei Tarkovsky, 1972) ou “Blade runner” (Ridley Scott, 1982). É neste plano que parece, em grande medida, enquadrar-se também “O mundo no arame”, longa metragem de 1973 de um dos grandes realizadores alemães do pós-guerra, Rainer Werner Fassbinder, a partir de agora disponível em dvd, na espantosa edição restaurada que já tinha iluminado as salas de cinema portuguesas no final do ano passado. Baseado no romance “Simulacron 3”, de Daniel F. Galouye, este é um filme entre a ficção científica, o drama policial e a interrogação filosófico-ontológica. Fred Stiller, o protagonista, é o responsável por um projeto de informática num grande instituto de cibernética que está a desenvolver uma réplica virtual do mundo, com simulacros de seres humanos. O seu antecessor morreu misteriosamente, deixando um segredo em Continue reading

“Extremamente alto e incrivelmente perto”, de Jonathan Safran Foer, e “Extremamente alto, incrivelmente perto”, de Stephen Daldry

capa jonathan safran foer extremamente alto e incrivelmente perto

Originalmente publicado em 2005, este livro regressa à ribalta graças à adaptação cinematográfica de Stephen Daldry, estreada ontem em Portugal, com o jovem Thomas Horn, Sandra Bullock e Tom Hanks nos principais papéis. A atração inicial da obra de Jonathan Safran Foer surge graças à Continue reading