“Uma separação”, de Asghar Farhadi

“Uma separação”, o quinto filme do iraniano Asghar Farhadi – que recebeu o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, o Globo de Ouro na mesma categoria e o Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado, e que hoje chega ao mercado português do dvd -, granjeou o respeito da comunidade internacional e do governo iraniano pelo trabalho do realizador. Um filme que é mais uma marcante confirmação do vital nicho do cinema contemporâneo que se vai permitindo em terras persas, sendo o nome de Farhadi digno de ser associado aos de Abbas Kiarostami ou Jafar Panahi. “Uma separação” é um melodrama que, a um primeiro olhar, retrata isso mesmo: uma separação, uma separação de um casal. Numa entrevista ao realizador, que acompanha, em extra, a edição em dvd, Farhadi refere que procurou, no princípio do filme, pôr em cena o próprio filme – essa separação -, o que não pressupõe, contudo, que esta seja uma narrativa já previamente dada ou fechada. Bem pelo contrário. Se é claro, desde a cena inicial, o tema central do filme, tudo o que realmente daí advém nem sempre o é. Simin (Leila Hatami) é uma mulher da classe média iraniana, professora, que quer sair do país em busca de uma vida melhor para si e para a sua filha. Nader (Peyman Moaadi), o marido, não a quer acompanhar, por ter a seu encargo o pai, que sofre de Alzheimer, e por não querer separar-se da filha, Termeh (Sarina Farhadi), uma jovem madura e inteligente, que lhe está muito ligada. A partir deste conflito inicial, aquilo que Farhadi faz é desenrolar a complexidade que lhe é subjacente e as suas consequências. Por um lado, faz um retrato do Irão contemporâneo e das suas contradições: mostra uma sociedade dividida em classes, machista e teocrata, que facilmente desvaloriza o indivíduo em favor dos preceitos religiosos da charia – o que é evidente sobretudo nas personagens de classe mais baixa, como a criada Razieh (Sareh Bayat). Esta sociedade que o realizador filma, muito marcada pelo preconceito, pelo medo e pelo fantasma da violência doméstica, é, porém, pano de fundo para as tramas e pistas que Farhadi vai tecendo e convidando o espetador a desenlear. Ao espetador, cabe pensar, imaginar e interpretar, de certo modo, o papel de um detetive. Este é um filme de enigmas, quase à maneira de um film noir norteamericano dos anos 40. Muito influenciado pelo teatro, em “Uma separação” Farhadi aproxima-se do universo dos conflitos conjugais de Bergman (como o próprio recorda na mesma entrevista) e questiona, por um lado, os limites da tradição e da modernidade numa sociedade muito retrógada e, por outro, os limites de uma relação amorosa. Contudo, quando o que está em jogo é “algo de muito sério”, em que as personagens se veem confrontadas com episódios do passado e obrigadas a mentir para se defender, então a incursão cinematográfica de Farhadi parece tornar-se mais universal ainda e interrogar sobre o valor mais profundo da linguagem, da moral e da ética, bem como da (im)possibilidade de os indivíduos conseguirem coexistir consigo mesmos.

dvd “Uma separação” [“Jodaeiye Nader az Simin”], de Asghar Farhadi, com Peyman Moaadi, Leila Hatami,…
Alambique, 2011/2012

 

João Eduardo Ferreira:
Entre o preconceito, a tradição e o amor desenvolve-se a mentira. Sobre tudo, a justiça é consagrada na equidistância do olhar das duas crianças-actrizes. À ansiedade do nosso próprio julgamento não é alheio o critério de montagem das cenas e os planos sobrepostos de uma cidade que, por definição, permanece em desequilíbrio. O cinema tem o Irão no seu centro e, aí, “Uma separação”, de Asghar Farhadi, é nuclear.

João Lopes:
Como é que um homem e uma mulher se divorciam no Irão? A pergunta não envolve nenhum fator pitoresco, muito menos anedótico. Quem a coloca é Asghar Farhadi em “Uma separação”, afinal convocando o melhor de dois mundos: um realismo militante, atento às mais secretas vibrações dos corpos e seus pensamentos, e um gosto melodramático cujo poder encantatório permanece universal. Em tempos de muito ruído promocional visando os consumos do Natal, este é o mais natalício dos filmes: um retrato da paixão extenuada e da possibilidade da compaixão. Ganhou o Urso de Ouro de Berlim, a provar que nem tudo está perdido na Europa. texto no Sound + Vision [ 1 ]  texto no Sound + Vision [ 2 ]

texto no Doodles

 

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