Monthly Archives: March 2012

“Fingido e verdadeiro ou O martírio de S. Gens, ator”, do Teatro da Cornucópia

Palavras de Santo Agostinho sobre o grau de veracidade ou engano da experiência dos sentidos são as primeiras que se ouvem numa peça, em si mesma, repleta de ambiguidades. “Fingido e verdadeiro ou O martírio de S. Gens, ator” é uma desconstrução do texto de Lope de Vega, “O fingido verdadeiro”, em que Gens, dramaturgo e ator do imperador romano Diocleciano, do século III, famoso pelas suas sátiras aos cristãos, certo dia, perante a sua representação de mártir, se convence de tal forma que acaba por se converter. Luís Miguel Cintra desfragmenta o texto original de Vega para questionar e esbater as fronteiras entre o verdadeiro e o fingido do trabalho do ator (não há, na representação, um “fingimento verdadeiro”) e confrontar, ao mesmo tempo, o espetador com a Continue reading

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“É na terra, não é na lua”, de Gonçalo Tocha

 

“Corvo. Ilha do Corvo. Pleno Oceano Atlântico. Açores.” O novo documentário de Gonçalo Tocha é um diário da vida na mais pequena e, como outros dizem, primitiva ilha do arquipélago, esse lugar que “É na terra, não é na lua”. Na sua segunda longa metragem – depois de “Balaou”, de 2007 -, Tocha dá a ver as emoções do Corvo: anuncia que o seu documento não é uma representação, mas uma imagem, um reflexo de um ilha dentro de si. Tocha faz-se olho e máquina de filmar. Descreve e capta as histórias, os arquivos, os jornais, os mitos da Nossa Senhora dos Milagres que terá dado à costa numa pequena caixa abandonada, “muito lindinha”. Fixa o rosto dos baleeiros e filma o seu diário por entre as malhas de Inês Inêz, que lhe tece o Continue reading

Nikias Skapinakis no Museu Berardo, Lisboa

Abre hoje ao fim da tarde e pode ser vista até ao dia 24 de junho, no Museu Coleção Berardo, Lisboa, a mais abrangente exposição já montada em redor do trabalho do pintor português Nikias Skapinakis. Embora o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu do Chiado ou a Fundação Serralves já tenham dedicado mostras a este nome maior da nossa pintura, aquilo que podemos ver em “Nikias Skapinakis – Presente e passado, 2012-1950”, mais do que uma retrospetiva, é uma escolha do próprio pintor de uma série de obras que marcam e resumem o seu trabalho. A sua seleção viaja do Continue reading

Red Trio + Nate Wooley, disco e concerto em Lisboa

Nesta 5ª feira, o Teatro Maria Matos será palco da estreia ao vivo da mui aguardada colaboração discográfica do Red Trio com o magnífico trompetista norteamericano Nate Wooley. Foi precisamente em cima de um palco que Wooley e o trio português — Hernâni Faustino (contrabaixo), Rodrigo Pinheiro (piano) e Gabriel Ferrandini (bateria e percussão) — se conheceram. Estávamos em 2010, e eles no Clean Feed Festival, em Nova Iorque. Nas notas contidas em “Stem”, o  espantoso fruto inaugural dessa aliança, lançado há poucos dias, Nate Wooley recorda Continue reading

Antonio Tabucchi [1943 / 2012]

Nasceu numa pequena aldeia da Toscana, em 1943, mas o seu coração dividiu-se entre a sua pátria de origem e a pátria da língua portuguesa. A sua vida fez-se entre a viagem, a imaginação e o sonho, a literatura, que assinou e ensinou. Em Paris, quando jovem, apaixonou-se pela “Tabacaria” de Álvaro de Campos, que o trouxe a Portugal, no final dos anos 60. Fascinou-se por Lisboa e pela obra de Pessoa, conheceu Alexandre O’Neill e Maria José de Lencastre, com quem veio a casar e a Continue reading

Joe McPhee ao vivo na Kolovrat 79, Lisboa

O sótão dessa crucial loja da contemporaneidade lisboeta que é a Kolovrat 79 recebe hoje à noite a fulgurância sonora e discursiva de Joe McPhee, saxofonista e preponderante teórico do free jazz enquanto mensagem sociopolítica, na senda de nomes maiores como os de John Coltrane, Ornette Coleman ou Albert Ayler, aos quais indubitavelmente merece ser associado. Na sala do Príncipe Real, far-se-á acompanhar de outras duas figuras de inequívoca relevância da história do jazz moderno em Continue reading

“Nos idos de março”, de George Clooney

No ano passado, na quarta película com a sua assinatura autoral, George Clooney presenteou-nos com mais um exemplar drama político, “Nos idos de março”, que nos chega agora às mãos em dvd. Depois de “Confissões de uma mente perigosa”, “Boa noite, e boa sorte” e “Jogo sujo”, Clooney encarna o governador Michael Morris, um dos candidatos democratas em voltas ainda primárias para a presidência dos Estados Unidos da América (assunto tão central na agenda mediática dos dias que agora correm…). A ação do filme decorre durante a campanha em Ohio, porque “quem ganha Ohio, ganha a nação”, e a trama Continue reading