“Uma separação”, de Asghar Farhadi

Em pleno período de blockbusters de respostas já mastigadas na ponta da língua, o ano de estreias cinematográficas que realmente importam não ficaria completo sem este ovni que, da primeira à última cena, tantas perguntas lança, por mais complexas e incómodas que sejam. Tendo arrecadado os galardões para melhor ator, melhor atriz e melhor filme (o Urso de Ouro) na edição deste ano da Berlinale, o importante festival de cinema de Berlim, esta é uma parábola que, à superfície, aborda as consequências nefastas do divórcio de um casal com uma filha menor no Irão dos nossos dias. No seu âmago, contudo, fala de diversos outros níveis de diversas outras separações: sociais, políticas, religiosas, ideológicas, etc… Real e cru como pouco cinema contemporâneo sabe ser, o angustiante drama conjugal de “Uma separação” mostra-nos um potencialmente infinito rol de incidentes e manipulações, mais ou menos convenientes, mais ou menos conscientes, espécie de teoria do caos aplicado a um cenário relativamente reduzido, centrado no calamitoso encontro entre duas famílias. Uma preciosidade, mais uma, para a recente cinematografia iraniana – e mundial. 

filme “Uma separação” [“Jodaeiye Nader az Simin”], de Asghar Farhadi, com Peyman Moaadi, Leila Hatami,…
Alambique, 2011 / 2011

 

João Eduardo Ferreira:
Entre o preconceito, a tradição e o amor desenvolve-se a mentira. Sobre tudo, a justiça é consagrada na equidistância do olhar das duas crianças-actrizes. À ansiedade do nosso próprio julgamento não é alheio o critério de montagem das cenas e os planos sobrepostos de uma cidade que, por definição, permanece em desequilíbrio. O cinema tem o Irão no seu centro e, aí, “Uma separação”, de Asghar Farhadi, é nuclear.

João Lopes:
Como é que um homem e uma mulher se divorciam no Irão? A pergunta não envolve nenhum fator pitoresco, muito menos anedótico. Quem a coloca é Asghar Farhadi em “Uma separação”, afinal convocando o melhor de dois mundos: um realismo militante, atento às mais secretas vibrações dos corpos e seus pensamentos, e um gosto melodramático cujo poder encantatório permanece universal. Em tempos de muito ruído promocional  visando os consumos do Natal, este é o mais natalício dos filmes: um retrato da paixão extenuada e da possibilidade da compaixão. Ganhou o Urso de Ouro de Berlim, a provar que nem tudo está perdido na Europa. texto no Sound + Vision [ 1 ]  texto no Sound + Vision [ 2 ]

 

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