“O moinho e a cruz”, de Lech Majewski

capa lech majewski o moinho e a cruz

Há um lugar-comum histórico que nos garante que o cinema é um herdeiro formal da pintura. Herdeiro menor, segundo tal perspetiva… Digamos que “O moinho e a cruz” é um exercício de cinema que toma essa herança à letra, mas para mostrar como nela, e através dela, se exprime a singularidade do facto cinema, da sua linguagem e capacidade de reinvenção do mundo. Majewski trabalha sobre “A subida ao Calvário”, de Bruegel, encarando o quadro a partir de uma metódica duplicidade: por um lado, há nele as marcas muito concretas da Flandres ocupada pelos espanhóis em 1564; por outro lado, a representação da Paixão de Cristo é entendida como uma cena primordial que o cinema convoca e transfigura, relançando-a como “objeto” cinematográfico. Obviamente devedor de experiências com a pintura propostas por cineastas como Jean-Luc Godard (“Paixão”, 1982) ou Peter Greenaway (“O contrato”, 1982), “O moinho e a cruz” existe como o bloco-notas imaginário de um espetador situado num tempo dúplice em que é possível circular, sem trauma, entre representação e coisa representada. Em última instância, o seu tema é a perigosa e contagiante liberdade de olhar.

dvd “O moinho e a cruz” [“The mill and the cross”], de Lech Majewski, com Rutger Hauer, Charlotte Rampling, Michael York,…
Alambique, 2011 / 2013

João Lopes

 

texto no Doodles

 

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