“Zebulon”, de Peter Evans, John Hébert e Kassa Overall

capa peter evans zebulon

Por mais extraordinariamente idiomática que seja a expressão de Peter Evans – e, nos últimos anos, porventura à exceção de Nate Wooley, dificilmente se encontrará um trompetista com ação de tal forma prevalente no grémio da música improvisada –, há momentos em que possui consequências eminentemente revogatórias. No sábado passado, no Teatro Maria Matos, em concerto com um Rodrigo Amado Motion Trio humildemente empático e dignamente compadecido, o contágio do seu dispersivo esguicho de ideias, técnicas, hálitos e humores revelou-se fundamentalmente corruptor. No entanto, em “Zebulon”, o disco em trio gravado ao vivo no homónimo, e já defunto, clube novaiorquino, que acaba de editar de maneira caseira (disponível no seu site), mostra-se menos impiedoso e, ainda que profanamente autoritário – e um invariável cultor de eupneia –, mais sagaz e compreensivo face às necessidades da poliglótica parelha rítmica do sólido John Hébert e do surpreendente Kassa Overall, que, apesar de tudo, manobra com prudência por quatro extensos ensaios que se entendem como uma propedêutica para a bipolaridade. Coligindo materiais em termos praticamente alucinatórios – e cuja obsequiosa concatenação de uma história com oito décadas de configuração moderna comprova tratarem-se do produto de uma aguda e ardilosa consciência –, Evans promove novos parâmetros de sincronicidade para um compósito que surpreende pela sua dimensão orgânica: afinal, há aqui instantes em que, rejeitando liminarmente o mistifório, as suas controladas baforadas são a manifestação de uma curiosidade anatomista em relação a cores, nomes e temas tradicionais. Mas, como em tanta da narrativa fulcral ao trompete, é através de mais aparatosa articulação – em cada subida de registo, em turbulentas emissões polifónicas, na loquacidade a par da clareza tonal, na regurgitação de um menu preparado pelos seus predecessores – que sustenta exemplarmente um aspeto crucial da sua produção: a sugestão de que toda esta música, irrequieta, ziguezagueante, feérica, tão monolítica quão maleável, pode resultar de ponderadas reflexões, de discursos cuidadosamente anotados, do estudo, de tudo aquilo que a afasta da instantaneidade, independentemente de ser nessa instância que melhor se compreende. E é desse equilíbrio entre conteúdo e contexto que se gera uma elementar axiologia de improvável superação.

disco “Zebulon”, de Peter Evans, John Hébert e Kassa Overall
More is More / import. Trem Azul, 2013

João Santos

 

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