Category Archives: Música

“Music of Vladimir Martynov”, do Kronos Quartet

A propósito de Vladimir Martynov, David Harrington – violinista, fundador e diretor artístico do Kronos Quartet – disse que a sua música parece refletir e absorver a humanidade de uma forma singularmente bela. O Kronos Quartet é um dos mais requintados e exigentes quartetos de cordas da música contemporânea, cuja transversalidade de repertório perpassa a música clássica, a minimal, o jazz, folclores distintos, bandas sonoras e uma miríade de colaborações com outros compositores e artistas, entre os quais se destacam os nomes de Steve Reich, Terry Riley, Philip Glass, Tom Waits, Allen Ginsberg ou Astor Piazzolla. Neste seu recentíssimo e paradigmático registo, tocam três peças especialmente escritas ou reequacionadas por Vladimir Martynov para os seus dois violinos, viola e violoncelo. O percurso deste notável compositor contemporâneo (nascido em 1946) fez-se entre a educação clássica no conservatório e as experimentações da música serial, quando, no final dos anos 70, se começou a dedicar à Continue reading

Gustav Leonhardt [1928 / 2012]

Foi um aristocrata singular no campo dos intérpretes de música erudita da segunda metade do século passado, com uma abordagem que primava pelo rigor intelectual, pela austeridade formal e por uma inata e profunda compreensão da conjuntura histórica subjacente a cada peça que interpretava. Gustav Leonhardt foi pioneiro e empenhadíssimo promotor do movimento apologista da interpretação do repertório clássico exclusivamente com instrumentos e padrões técnicos das épocas em que fora originalmente escrito. Cravista e pianista de importância central na história da música, o holandês foi também maestro, musicólogo, professor e editor, atuou e gravou com os mais diversos tipos de Continue reading

“Soul time!”, de Sharon Jones & The Dap-Kings

Poucos meses depois da avassaladora passagem pelos palcos do Parque Marechal Carmona, Cascais (concerto integrado no Cascais Cool Jazz Fest), e da Casa da Música, Porto, os novaiorquinos Sharon Jones & The Dap-Kings publicam este “Soul time!”, que mantém a sua fasquia musical intocável – ainda no ponto mais elevado da soul contaminada pelo funk registado neste século, exatamente onde a havia conduzido nos quatro fundamentais álbuns de originais que compõem a sua discografia: “Dap dippin’ with…” (2002), “Naturally” (2005), “100 days, 100 nights” (2007) e “I learned the hard way” (2010), todos com o vital selo de garantia da sua imaculada editora, a Daptone. A “surpresa” de tamanha coerência e solidez é tanto maior quanto se trata de uma compilação de material até aqui disperso por Continue reading

“Mount Wittenberg orca”, de Dirty Projectors + Björk

Os Dirty Projectors são um dos mais infalíveis bastiões de defesa do sentido de aventura e risco aplicados à música pop de anos recentes. Contando com o apoio inicial da National Geographic Society, para cujos projetos de investigação e proteção marítima revertem os lucros das vendas, este é o espantoso resultado do encontro criativo do coletivo com Björk Gudmundsdóttir, sua assumida admiradora, em redor de uma história sobre uma Continue reading

“How the thing sings”, de Bill Orcutt

O guitarrista norteamericano Bill Orcutt faz música para quem procura constantemente o som da surpresa, não para ouvidos que apenas queiram mais do mesmo, não para quem se satisfaz somente com o que já conhece, com o seguro ou com o previsível. Esta é música de arte de vanguarda, de desafio, de extremo, de exceção. Assumidamente hard listening. Hipótese de confluência desconstrucionista do improv, do punk e dos blues mais primários, o recente álbum “How the thing sings” (tal como o anterior, o impoluto e histórico “A new way to pay old debts”, de 2009) apresenta música de extremo envolvimento físico com Continue reading

Sam Rivers [1923 / 2011]


Nascido no seio de uma trupe de gospel em que militavam o pai e a mãe (embora, na realidade, a sua herança musical remonte ainda à geração anterior), Sam Rivers viveu em Chicago e em Little Rock e estudou violino, piano e saxofone até, no início dos anos 40, ser alistado pela Marinha. Estacionado na Califórnia, aprofundou conhecimentos e acumulou experiência de palco. Em 1947, graças à G. I. Bill (a lei que garantia estudos universitários ou vocacionais para veteranos da II Guerra Mundial), ingressou no prestigiado Conservatório de Boston, onde se notabilizou em Composição e Teoria, e se aproximou de músicos como Charlie Mariano, Gigi Gryce, Jaki Byard ou Herb Pomeroy. Ganhando uma insigne reputação, partiu para Nova Iorque e em 1964 foi recrutado por Miles Davis para ocupar durante seis meses o lugar prometido a Wayne Shorter (obrigado contratualmente por mais meio ano com o grupo de Art Blakey). Assinando e estreando-se pela Blue Note, seguiram-se meses cruciais para a construção de uma obra – a solo e com colegas de editora como Tony Williams, Larry Young, Bobby Hutcherson ou Andrew Hill – de invulgar envergadura modernista que, na década de 70, ganhou em definitivo asas quando, com a sua mulher, Beatrice, abriu o loft Rivbea à mais audaz comunidade criativa novaiorquina (Hamiet Bluiett, Anthony Braxton, Marion Brown, Dave Burrell, Andrew Cyrille, Olu Dara, Julius Hemphill, Oliver Lake, Jimmy Lyons, Roscoe Mitchell, David Murray, Wadada Leo Smith, Henry Threadgill, etc.), desenvolveu inolvidáveis parcerias com Cecil Taylor ou Dave Holland e, naturalmente, chegou ao ápice do free em gravações para a Impulse. Destacam-se, desde então, as peças para o grupo Winds of Manhattan, as suas composições para a Rivbea Orchestra, digressões em quarteto e trio (em 2001 passou por Portugal com a formação alargada no Matosinhos Jazz e em trio no Seixal Jazz) e uma discografia cujo derradeiro sinal de grandeza reside possivelmente no díptico “Inspiration” e “Culmination”, registado pela RCA em 1998. Continue reading

Tudo o que desejamos para o Natal…

… e para celebrar o 100º aniversário de Spike Jones (14 dezembro 1911 / 1 maio 1965)…