Category Archives: Música

Joe McPhee ao vivo na Kolovrat 79, Lisboa

O sótão dessa crucial loja da contemporaneidade lisboeta que é a Kolovrat 79 recebe hoje à noite a fulgurância sonora e discursiva de Joe McPhee, saxofonista e preponderante teórico do free jazz enquanto mensagem sociopolítica, na senda de nomes maiores como os de John Coltrane, Ornette Coleman ou Albert Ayler, aos quais indubitavelmente merece ser associado. Na sala do Príncipe Real, far-se-á acompanhar de outras duas figuras de inequívoca relevância da história do jazz moderno em Continue reading

Feist ao vivo em Lisboa e no Porto

Passaram quatro anos desde que Leslie Feist deu ao mundo “The reminder”, que jamais deixaremos de associar a temas como “My moon, my man”, “I feel it all” ou “1, 2, 3, 4”. Passou demasiado tempo, mas, em 2011, Feist voltou, deitada numa árvore em forma de F, com “Metals”, um álbum muito diferente dos antecessores, mais metálico, como o nome, e mais negro, como a substância. Feist, também ela, parece ter mudado. “Anti-pioneer”, diz-se, provavelmente precisou de regressar a casa para Continue reading

Thurston Moore ao vivo em Guimarães e em Lisboa

A alma, voz e guitarra por detrás dos Sonic Youth vem a Portugal apresentar o seu mais recente álbum “Demolished thoughts”, de 2011, um magnífico trabalho de estúdio produzido por Beck. Este é o quarto disco a solo de Thurston Moore, num registo marcadamente distinto do rock iconoclasta da sua banda, mas que dá continuidade a um trilho já traçado sozinho no álbum que apresentara em 2007, “Trees outside the academy”. “Demolished thoughts” é uma reservada e despretensiosa incursão Continue reading

“Live in London”, de Randy Newman

Em junho de 2008, Randy Newman deu um recital intimista numa igreja anglicana do século XVIII. Acompanhado pela BBC Concert Orchestra, conduzida por Robert Ziegler, a sessão foi gravada e pode agora ser vista e ouvida na íntegra, nesta edição dupla de cd e dvd. Newman revisita temas incontornáveis da sua discografia, compostos para álbuns que cronologicamente se estendem da sua estreia no mítico “Randy Newman”, de 1968, ao igualmente paradigmático “Harps and angels”, que viria a ser editado meia dúzia de semanas depois do concerto. Como genial autor e contador de histórias que é, Randy Newman percorre transversalmente as Continue reading

“Histoire de Melody Nelson”, de Serge Gainsbourg

Um galã num Rolls Royce e “une adorable garçonne et si délicieuse enfant” numa bicicleta. Ele com 40 anos, ela com 15. “Histoire de Melody Nelson”, de 1971, é a sublime e polémica obra nabokoviana de Serge Gainsbourg sobre a obsessão erótica de um homem de meia idade por uma menina de cabelo vermelho. Um conto de sedução e Continue reading

“O que você quer saber de verdade”, de Marisa Monte

capa marisa monte o que voce quer saber de verdade

Após declarados louvores, em 2006, pelas antagónicas peças que são “Infinito particular” e a obra prima “Universo ao meu redor”, Marisa Monte regressa com 14 novas canções que deambulam pelos espaços sonoros que o seu programa estético tem procurado captar e, indiscutivelmente, particularizar desde o início do seu percurso discográfico, em 1989. Neste “O que você quer saber de verdade”, encontram-se as filiações já sugeridas em obras anteriores, com a compositora a sublinhar a fidelidade às Continue reading

The Thing e Atomic ao vivo na Culturgest, Lisboa

São duas formações centrais nessa periferia cada vez mais relevante para o free jazz atual que é a Escandinávia, e partilham a espantosa coesão instintiva da secção rítmica norueguesa composta pelo contrabaixo de Ingebrigt Håker Flaten e pela bateria de Paal Nilssen-Love. The Thing e Atomic, que neste próximo domingo, 12 de fevereiro, merecem a honra de subir ao Grande Auditório da Culturgest, Lisboa, nasceram em 2000, reunindo igualmente outros talentos que, nestes ou noutros contextos, viriam a confirmar na última década a imensa vitalidade das suas “vozes” instrumentais: Fredrik Ljungkvist, Magnus Broo e Håvard Wiik, nos Atomic; e o explosivo saxofonista sueco Mats Gustafsson, nos The Thing. Se as lições aprendidas nos manuais decisivos do free e de linguagens improvisadas adjacentes são a matéria prima dos dois grupos, nos The Thing a energia do rock assume um papel igualmente central, condensado em sintomas que vão muito para além das versões que tocam com alguma regularidade de temas de PJ Harvey, The Sonics, The White Stripes ou Yeah Yeah Yeahs. Os Atomic, por sua vez, optam por seguir uma via mais sintonizada com as tradições do hard bop, do free e do improv norteamericano e europeu, sem jamais abdicar de Continue reading