Category Archives: Música

“How do you do”, de Mayer Hawthorne

Meia dúzia de meses volvidos sobre a edição – exclusivamente digital e gratuita – do EP de versões “Impressions”, o norteamericano Mayer Hawthorne publica este que é efetivamente o seu segundo álbum de estúdio, rigoroso compromisso entre o tom ritmicamente mais sólido desse mini álbum e o requinte melódico que nos conquistou em “A strange arrangement” (Stones Throw, 2009). “How do you do” é o comprovativo de que essa sua estreia longa foi bem mais do que uma feliz sucessão de clássicos instantâneos que nos remetiam as emoções e os sentidos para os dias de ouro da Motown, ou que o seu talento enquanto compositor, arranjador, multi-instrumentista e cantor se sustenta num fôlego que lhe garante o estatuto de rei incontestado da blue eyed soul atual. Fosse a indústria musical um jogo limpo e discos como este propagar-se-iam como um vírus benigno no coração de todos os que almejam extrair parcelas iguais de arte e de entertenimento das canções que ouvem. Um dueto superlativo com o “crooner” Snoop Dogg e outras 11 músicas igualmente extraordinárias agrupam-se em pouco menos de 40 minutos, dose mais do que suficiente para fazer deste um dos mais simples álbuns de audição essencial deste ano que agora finda. Continue reading

“Wolfroy goes to town”, de Bonnie Prince Billy

Outro capítulo de elevadíssimo nível criativo na discografia de estúdio de Bonnie Prince Billy, este “Wolfroy goes to town” reforça as aprendizagens dos igualmente imprescindíveis “The letting go” (2006), “Wai notes” (2007), “Lie down in the light” (2008), “Beware” (2009) e “The wonder show of the world” (2010), alojando-se no seu estratégico centro formal. São valiosíssimas canções de embalar sonhos radicalmente livres (“loving dreams keeps one youthful and free”, canta na inicial “No match”), exercícios de reconhecimento e exploração em torno de um sui generis fantasma country. Uma estratégia sonora deslocada no tempo, mas constantemente a desbravar um trilho próprio – ainda que aparentemente nenhum esforço nesse sentido exista -, cada vez mais intimista, contido e minucioso nos seus modos.  Continue reading

Presentes com futuro, Natal 2011

Escolhemos cinco discos, cinco dvd’s e cinco livros, todos recentes, todos notáveis, todos distintos, como potenciais presentes de Natal com matéria criativa e ideológica para durar por muitos anos na memória afetiva de quem os receber. Continue reading

The Stepkids ao vivo no Porto e em Lisboa

A irrepreensível Stones Throw perdeu Mayer Hawthorne (o ótimo álbum novo, “How do you do”, já saiu na Universal Republic…), mas arranjou rapidamente substitutos para o setor “brancos com inequívoco talento copista vocacionado para a idade dourada da soul e do funk”: The Stepkids. São consideravelmente mais livres e psicadélicos do que Mayer, mas também fazem caber um assinalável rol de referências no álbum homónimo que editaram há poucas semanas: Sly & The Family Stone, Isaac Hayes, Shuggie Otis, O’Jays, Mizell Brothers, Funkadelic, Free Design, etc… Uma esclarecida diversão pop para experimentar ao vivo, hoje no Porto (Plano B) e amanhã, 5ª feira, em Lisboa (Musicbox). Continue reading

Flur, dez anos


Abriu há dez anos, cumpridos ontem, a 4 de dezembro de 2001. É uma loja de discos com uma aura como só outras duas ou três em Portugal tiveram. Mas a Flur não se limita a ser uma loja de discos – é, acima de tudo, uma casa de discos, uma casa de música. Uma casa de sonhos e a melhor música da atualidade e do próximo momento (e dos respetivos alicerces construídos no passado). Além das missionárias paixões sonoras de quem por lá trabalha, há muitas virtudes para ir descobrindo em cada visita àquele corredor. Exemplo: a garantia de haver sempre alguma nova ideia musical que nem os nossos sonhos mais selvagens conseguem antecipar. Exemplo: a newsletter semanal, Mailing Lust, que é a mais sólida publicação musical portuguesa dos últimos anos. Exemplo: os preços, altamente competitivos e tantas vezes abaixo de falaciosos “preços mínimos garantidos”… E há mais, sempre mais. Para descobrir com regularidade, mesmo à saída da estação de metro de Santa Apolónia. Para quem vem de mais longe, os comboios também param mesmo à frente, e a viagem vale totalmente a pena. Parabéns, Flur. Obrigado, Flur. Muitos dez, Flur. Continue reading

Vodafone MexeFest

Por Eleanor Friedberger, pelas viciantes canções da sua recente estreia a solo (“Last summer”) e por ser provavelmente a mais criativa voz feminina do rock da última década (nos seus The Fiery Furnaces), já valeria a pena o bilhete. Eleanor toca hoje às 9.45 pm na Casa do Alentejo, palco onde às 11.15 pm chega a brasileira Banda Mais Bonita Da Cidade (que também estará em Braga, no Theatro Circo, no sábado, às 9.30 pm). Pouco antes, uns metros ao lado, na Sociedade de Geografia de Lisboa, às 9.15 pm, o outro momento muito recomendável da noite: Josh T. Pearson. Para espreitar por cinco ou dez minutos, se se proporcionar, se estiver no caminho, há ainda Handsome Furs, Fanfarlo, Junior Boys, Paus e Spank Rock. Do cartaz de amanhã, dia 3, a nossa maior aposta vai para Lindstrom, mas também depositamos doses razoáveis de confiança em Filho da Mãe, Toro Y Moi, Aquaparque e James Blake. Para preencher eventuais curtos intervalos, talvez valha a pena cruzar ouvidos e olhos com Foxes In Fiction, Beat Connection, EMA, Dead Combo, Oh Land, When Saints Go Machine, Blood Red Shoes e We Trust. Continue reading

Oneohtrix Point Never ao vivo em Lisboa, Guimarães e Madeira

Dois anos depois, outra passagem pela Z.D.B., que se prevê ainda mais sombria e exigente, de Oneohtrix Point Never. Imenso talento enciclopedista que converte a história da música eletrónica do último meio século num código formal rigoroso, intransigente e extraordinariamente relevante para a contemporaneidade artística. Amanhã estará na adequadamente mais gelada noite de Guimarães. No sábado, mergulha na Madeira. Continue reading