Jazz em Agosto 2016

jazz em agosto 2016

Tem sido assim, de modo relativamente evidente, ao longo da última meia dúzia de anos: o Jazz em Agosto divide-se novamente, no roteiro que debuta amanhã, dia 4, entre o útil e o fútil, entre a credibilidade e a incredulidade, entre a excelência e a excedência. Há concertos imperdíveis, concertos razoáveis e concertos evitáveis. Mas o que realmente interessa é que existe. O que realmente interessa é que insiste. O que realmente interessa é que resiste. Não é fácil fazer melhor, sobretudo num campo sensorial intelectualmente tão exigente e labiríntico quanto este; contudo, não há como reprimir o sabor agridoce – essencialmente tendo em consideração o historial de contornos praticamente irrepreensíveis que esta celebração da música livre foi, até então, granjeando no decurso da quase totalidade das edições programadas pelo seu cabecilha-mor, Rui Neves.

Sejamos pragmáticos: muito provavelmente, o maior valor em que o seu dinheiro se pode converter na bilheteira da Gulbenkian é o que for investido no recital com que a White Desert Orchestra – da iconoclasta pianista e compositora Eve Risser – iluminará o Anfiteatro ao Ar Livre, a partir das 21:30 (palco e hora fixa para todos os espetáculos notívagos desta anuidade) do próximo domingo, 7 agosto, momento que deverá ficar indelevelmente cravado na memória mais seleta do ano concertístico nacional. Testemunhar, ao vivo e em 2016, o nascimento do som prodigioso deste decateto, simultaneamente singular e plural, é uma oportunidade soberana para participar no desafiante processo evolutivo de uma das mais vitais carreiras no contexto da jovem improvisação europeia de absoluta exceção. França alcança desta forma a Medalha de Ouro para o jogos olímpicos que são a programação do Jazz em Agosto 2016.

Apesar da curta margem que a distancia da formação gaulesa, a Medalha de Prata será seguramente entregue – encerrando as festividades, na noite de 14 agosto, domingo seguinte – à sociedade das nações brasileiro-escandinavas agregadas sobre a batuta (ou seja, as baquetas) do baterista Paal Nilssen-Love: a Large Unit, que agrupa em seu redor treze exemplos do novel talento jazzístico que tem ajudado a potenciar na sua Noruega natal, mas também nas vizinhas Suécia, Finlândia e Dinamarca, bem como no Brasil. É do lado certo do Atlântico que voam o berimbau de Célio de Carvalho e a cuíca de Paulinho Bicolor (ambos com mais alguma percussão na bagagem…), que acrescentam uma espécie de inusitado simulacro não-wave sambista ao imponderável criativo do ensemble, fruto de uma mais ou menos recente epifania de Nilssen-Love sobre o infinito rítmico afro-brasileiro, como ouvido no premente segundo longa duração do coletivo, “Ana”, publicado há poucas semanas. Para melhor compreender o estado de espírito presente das raízes solipsistas de tão jubilosa odisseia sonora, sugerimos complementarmente a apresentação em modo solista (na Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna, pelas 18:30 do dia anterior, 13 agosto, com entrada gratuita) do chefe desta impressionante delegação. Garantimos: não será “apenas” um solo imenso de bateria; será, antes, um sol imenso de bateria.

Mas, por falar em sol, o trabalho para o Bronze está destinado aos Estados Unidos da América: ficará nas mãos do inaudito, portentoso e adventício “power trio” noviorquino Pulverize The Sound, composto pela assombrosa trompete do imaculado Peter Evans e pela extasiada secção rítmica de Tim Dahl e Mike Pride (no baixo e nas percussões, respetivamente), que fará eclodir a sua fortuita erupção decibélica já neste sábado, dia 6, assim que anoitecer. Em tempos recentes, raras foram as conjunturas estéticas nas quais o radicalismo sónico antingiu tão excitantes proventos como nas especulações gravadas para o disco homónimo desta tríade, lançado no ano passado. Improvisações assertivas, selvagens, lúbricas, que convocam o caos para lhe conferir uma renovada ordem de valores, baseada num livro de estilo que se escreve em páginas aleatoriamente organizadas entre o free jazz e o noise, perpassado de igual forma por uma vocação tribalista indómita ou por distintas mutações eletrónicas de ponta.

Esta 33.ª edição do festival lisboeta propõe, no entanto, pelo menos mais três ou quatro números musicais dignos de nota – caso o orçamento pessoal do melómano seja algo flexível, obviamente… O mais recomendável será a estreia local do agrupamento Snakeoil (na segunda noite), regido pelo audacioso saxofone de Tim Berne, que é aqui coadjuvado pelas instruídas proezas dos clarinetes de Oscar Noriega, do piano e das eletrónicas de Matt Mitchell e da bateria de Ches Smith, todos eles instrumentistas de créditos firmados, aos quais se juntou, no álbum de 2015 (“You’ve been watching me”), o guitarrista Ryan Ferreira, elemento que adiciona intensidade ao som praticado pelo quarteto nativo nos dois CDs que lhe inaugurou a produção fonográfica, sem desvirtuar tanto a riqueza harmónica quanto seria de temer. Jazz complexo mas “clássico” q.b., a consonância deste combo vem sendo um dos predicados mais assinaláveis do catálogo da etiqueta ECM no transcurso da corrente década.

A perspetiva de escutar algo que se prove à altura do índice médio de felicidade gerado pelo Jazz em Agosto no seu público mais fiel pode justificar também a aposta no quarteto luso-italiano (com sede na Holanda…) que ostenta o quasi impronunciável nome Tetterapadequ. Escalado para o turno da noite de dia 8, dele fazem parte o laudável pianista Giovanni Di Domenico (que, p. ex., partilhou com o saxofonista japonês Akira Sakata, em 2014, a assinatura desse esplendoroso acontecimento discográfico chamado “Iruman”) e o versátil baterista João Lobo, bem como os diligentes Daniele Martini, saxofonista, e Gonçalo Almeida, contrabaixista. Estranhamente pouco divulgados por cá, os quatro ex-colegas de academia somam já cerca de 12 anos de atividade grupal, indisfarçavelmente orgulhosa do seu inconformismo e identidade.

Por fim, a nossa curiosidade orienta-se na direção de duas atuações conjugadas na primeira pessoa, agendadas para dois fins de tarde (18:30) num mesmo palco, o da Sala Polivalente: a do saxofonista e clarinetista germânico Frank Gratkowski (dia 14, com acesso livre), que foi pupilo do colossal Steve Lacy, com quem deve ter apreendido algo de meritório; e, especialmente, as ilustrações guitarrísticas urdidas por Marc Ribot (dia 5) para três arrebatadoras películas em 16 milímetros da realizadora americana Jennifer Reeves – “Shadows choose their horrors”, “Landfill 16” e “He walked away” -, naquela que é, comedidamente, a sua mais lúcida estratégia artística atual, ou seja, em solilóquio absoluto.

Antes, Ribot expõe, na noite de abertura, as irregulares qualidades do seu bando The Young Philadelphians, cujo programa de ação – a transfiguração para um jazz orquestral e musculado de clássicos “secundários” do soul funk, eternizados por artistas como Teddy Pendergrass, Silver Convention, MFSB, Ohio Players ou Van McCoy – merecia resultados mais marcantes do que a garrida e desnorteada caricatura – análoga às da capa do seu “Live in Tokyo” – de blues e rock (com um trio de cordas português à mistura!…) que é a sua dura realidade. Os vigorosos dotes percussivos do baixista Jamaaladeen Tacuma e do baterista G. Calvin Weston (inesquecíveis companheiros de Ornette Coleman e, este último, também de John Lurie) ajudam grandemente, mas não chegam para salvar o festim do fracasso formal. A boa notícia é que Marc Ribot mostra-se aqui consideravelmente menos insuportável do que comandando o trio Ceramic Dog, que tanto contribuiu para o infortúnio que foi o Jazz em Agosto em 2014.

Também Frank Gratkowski escolta até ao jardim noturno da Gulbenkian (e aos malfadados patos, que tanto sofrem na ruídosa escuridão…), no dia 12, a sua associação de músicos denominada Z-Country Paradise, que se atesta claramente aquém da sua valia individual. I.e., não  passa de um mosaico de egos mais empenhados em ser esteticamente exuberantes do que intrinsecamente esclarecidos – o que é, aproximadamente, o sintoma comum às restantes “atrações”: o lusitano Tuba and Drums Double Duo, no dia 10, a thrasher Ava Mendoza, no dia 11, e a profanação de Sun Ra por Thomas De Pourquery, no dia 13. Tudo isto à noite, claro está…

Ligeiramente melhor cotada do que este conjunto de nomes, pelo que logrando obter o benefício da dúvida, está a exibição (na noite do dia 9) em que o violinista Théo Ceccaldi se cruza com os saxofones e a voz de Alexandra Grimal (e com o contrabaixo e a bateria de Ivan Gélugne e de Florian Satche), para tentarem o impossível: aditar amplitude narrativa ao “cinema puro” do dadaísta “Entr’acte”, obra prima de 1924 de René Clair, com a presença dos “atores” Francis Picabia, autor da ideia original, Erik Satie, autor da partitura original, Marcel Duchamp ou Man Ray. Desejamos, no mínimo, que não se repita o lamentável confragimento que, no anterior Jazz em Agosto, assolou a conclusão de “Berlim – A sinfonia de uma capital”, dirigida por Walther Ruttmann, musicada por Alexander von Schlippenbach e Aki Takase, e barbaramente truncada, sem apelo nem agravo (nem um mero pedido de desculpas à plateia…), pela equipa técnica da fundação.

Mais uma tripla de filmes, estes com música de dentro para fora, integram o plano desta semana e meia: “Off the road” e “Chicago improvisations” desvelam um pouco da intimidade criativa do insigne contrabaixista Peter Kowald e seus colaboradores (gente do calibre de William Parker, Anna Homler, Fred Anderson, Hamid Drake ou Ken Vandermark), um par de anos antes do seu precoce desaparecimento; já “Electric Ascension live at Guelph Jazz Festival 2012” perpetua a convergência, cumprida em 2012, do Rova Saxophone Quartet com convidados como Hamid Drake, Fred Frith ou Rob Mazurek e com a perfeição imaterial de “Ascension”, um dos opus eternos de John Coltrane. Todos têm o selo da gravadora Rogue Art, e podem ser visionados na Sala Polivalente, às 18:30, nos dias 10, 11 e 12 deste agosto.

Derradeira proposição, e não por acaso uma das mais irrecusáveis: o saxofonista Evan Parker, esteta crucial da contemporaneidade (que, já agora, toca no dia 12 agosto no Museu do Chiado, Lisboa, num recital elementar e que em nada deve ao Jazz em Agosto), junta-se ao ilustre teórico e músico David Toop para ouvirem (melhor: para escutarem atentamente) e comentarem tesouros incomuns tomados das suas coleções de vinil. Duas sessões nómadas do ciclo “Sharpen your needles”, que decorre no Cafe Oto de Londres desde 2014 (por lá estiveram ainda ontem, 2 agosto), rigorosamente a não perder: no próximo fim de semana, dias 6 e 7, pelas 18:30, na Sala Polivalente. Tudo isto é jazz…

Bruno Bènard-Guedes

4 > 14 agosto
festival Jazz em Agosto 2016
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1196, de 3 agosto 2016

 

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