“Semikujira”, de Arashi, e “Ana”, de Large Unit

De que matéria e predicados se faz, por estes tempos, um baterista de idiossincrática voz criativa, soberano protagonista na evolução hermenêutica do instrumento e do quadro musical em que se aplica, e que ouse abdicar de pueris rotinas malabares? Paal Nilssen-Love sabe-o como poucos. Paal Nilssen-Love sabe-o como os grandes. Paal Nilssen-Love sabe tudo. Paal Nilssen-Love tem todas as respostas. O prodigioso percussionista norueguês tem vindo, sensivelmente desde o dealbar deste século, a forjar uma credibilidade categórica para a indelével identidade da sua percuciência impressionista, escorada no desígnio de instruída contemporaneidade do seu programa de instintivas soluções polirrítmicas: uma estratégia de economia sónica aleatória mas esclarecidamente abstrata, assimétrica, angular, oblíqua, labiríntica, desassossegada, inconformista, inquisitiva, resistente, pletórica, ascética, frugal, poética, imaterial. No seu prolífero mosaico discográfico há uma miríade de contundentes memórias em trânsito privilegiado para os anais do jazz holístico, mas escassos são os momentos em que, como acontece nestes dois discos recentemente burilados, se pode evocar a canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos para prometer que “nada será como antes, amanhã” – tal é o lirismo, a clarividência e a pungência estética aqui contida. O segundo volume da fantasia Arashi, partilhada com o inexaurível Akira Sakata e com o arrebatador Johan Berthling, é uma intangível e lancinante narrativa de contrastes, epifanias e rituais apoteóticos – tão distinta quanto a estreia homónima e, simultaneamente, tão distinta da estreia homónima.

capa large unit ana

Por seu lado, o investimento da Large Unit, uma apócrifa big band que consagra – e expande – em definitivo a amplitude e a transversalidade dos dotes autorais de Paal Nilssen-Love, é uma metafísica galáxia orquestral de inquieta dinâmica, cuja vibrante medula polifónica é agora transfigurada pela imperecível pulsão orgiástica da energia de dois instrumentistas brasileiros (um berimbau e uma cuíca) em enviesado transe cósmico. Nada nos prepara para a rigorosa excelência do êxtase adventício que nestas duas obras (primas… em segundo grau…) se doutrina. Inolvidável 2016, este que aqui cabe…

Bruno Bènard-Guedes

disco “Semikujira”, de Arashi
Trost / import. Flur, 2016

disco “Ana”, de Large Unit
PNL Records / import. Flur, 2016

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1197, de 17 agosto 2016

 

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