“Viagem a Tóquio” e “O gosto do saké”, de Yasujirô Ozu

yasujiro ozu o gosto do sake

Decididamente, a noção de reposição, com toda a sua carga clássica de sedução – ou de sedução clássica –, volta a estar ativa no panorama do mercado cinematográfico. Este ano, depois do regresso, em cópias digitais restauradas, de títulos como “Lawrence da Arábia” (David Lean, 1962) e “Taxi driver” (Martin Scorsese, 1976), chegou a vez de dois filmes de Yasujirô Ozu: “Viagem a Tóquio” (1953) e “O gosto do saké” (1962), este um dos poucos que rodou a cores e o derradeiro da sua filmografia. Mais do que nunca, a possibilidade de ver tais obras primas, não no brilho equívoco dos ecrãs de televisão ou computador, mas no recato próprio da sala escura, leva-nos a revalorizar o ato que nos faz ser espetadores de objetos cinematográficos, muito para além das euforias mais ou menos virtuais de discos e ficheiros (cuja utilidade, entenda-se, não está em causa). De facto, enquanto retratista das convulsões da sociedade japonesa e, em particular, da reconversão dos espaços familiares depois da II Guerra Mundial (temas exemplarmente cristalizados nestes dois filmes), Ozu foi também um autor, por excelência, do cinema como ato de uma partilha enigmática, quase secreta, com aquelas figuras humanas, ao mesmo tempo tão carnais e tão etéreas, que observamos no retângulo mágico que emerge da escuridão. Daí o encantamento que persiste no ambíguo realismo de “Viagem a Tóquio” e “O gosto do saké”: por um lado, deparamos com variações obsessivas sobre a frágil unidade da família (no primeiro caso, através de um casal que se desloca a Tóquio para visitar os filhos; no segundo, acompanhando a saga de crescente solidão de um viúvo que quer casar a filha); por outro lado, quanto mais somos envolvidos no novelo familiar, mais sentimos e pressentimos que Ozu nos convoca para uma serenidade vital, inseparável da consciência metódica, porventura pedagógica, do silêncio expectante da morte. Num livro canónico sobre Ozu, publicado em 1972, Paul Schrader condensou tudo isso na noção de um “estilo transcendental”, aliás partilhado com autores de origens muito diversas (“Transcendental style in film – Ozu, Bresson, Dreyer”, Da Capo Press). Ver ou rever agora estes dois filmes leva-nos a revalorizar o cinema, não como uma fábrica de efeitos, eventualmente especiais, antes como um exercício narrativo e uma prática existencial que, pelo mais radical dos paradoxos, tende para a depuração do invisível. Como se os mais pequenos detalhes da vida de cada ser humano exprimissem uma ordem sagrada que, em boa verdade, não sabemos colocar em palavras. Afinal de contas, Ozu nasceu a 12 de dezembro de 1903 e morreu a 12 de dezembro de 1963…

João Lopes

5 setembro [estreia nacional]
filme “Viagem a Tóquio” [“Tôkyô monogatari”], de Yasujirô Ozu, com Chishû Ryû, Chieko Higashiyama,…
Leopardo Filmes, 1953 / 2013

5 setembro [estreia nacional]
filme “O gosto do saké” [“Sanma no aji”], de Yasujirô Ozu, com Chishû Ryû, Shima Iwashita,…
Leopardo Filmes, 1962 / 2013

 

texto no Sound + Vision

 

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