“Martha Marcy May Marlene”, de Sean Durkin

Para a sua inaugural longa metragem, o norteamericano Sean Durkin jogou de forma terrivelmente sublime com os fantasmas das experiências coletivas traumáticas. Neste impressionante primeiro grande gesto autoral que é “Martha Marcy May Marlene”, o produtor do igualmente memorável “Afterschool” pensa os limites do ser na sua mais pungente fragmentação identitária. Numa comunidade da América rural, o realizador filma um quotidiano feito de trocas de favores, manipulação psicológica e princípios que parecem aliciar a um modo de vida feito apenas de duas regras: existir e partilhar – uma existência e uma partilha que se revelam, contudo, mascaradamente abusivas da integridade humana. É sob o olhar e o corpo da jovem Martha que Durkin nos faz sentir cruamente as brutalidades acometidas por esta seita. Tomando como ponto de viragem a fuga da protagonista da quinta onde o grupo habita e se legitima, discorre-se uma narrativa estruturada na tentativa de evasão dos espetros das personalidades que lhe foram atribuídas e das violações psíquicas e físicas que lhe vêm associadas. “Marcy May” e “Marlene” coabitam, porém, como sombras pairantes numa Martha cada vez mais incapaz, mesmo no seio familiar, de superar os estilhaços deixados pelos acontecimentos dolorosos que sofreu. A devastação das referências dá lugar à ansiedade, ao delírio, à paranoia e a uma inabilidade de destrinçar as realidades do tempo e do medo – um mundo suspenso no vazio em que Durkin nos faz entrar para nos confrontar com a vulnerabilidade angustiante de Martha feita Marcy May feita Marlene. Filme revelação de Elizabeth Olsen e título absolutamente incontornável deste ano de 2012, “Martha Marcy May Marlene” já está disponível em formato dvd, numa edição que inclui ainda a curta metragem “Mary last seen”, igualmente assinada por Sean Durkin, cuja história se vincula à da longa – e que a antecedeu em mais de um ano -, mostrando a chegada à comunidade de uma desprevenida Mary, personagem que, mesmo não sendo desempenhada por Elizabeth Olsen, facilmente se confundirá com Martha, Marcy May ou Marlene.

dvd “Martha Marcy May Marlene” [“Martha Marcy May Marlene”], de Sean Durkin, com Elizabeth Olsen, Sarah Paulson,…
Twentieth Century Fox / Pris, 2011 / 2012

 

texto no Doodles

João Eduardo Ferreira:
Por “Martha Marcy May Marlene”, de Sean Durkin, vão passando: a luz e as casas vazias de Edward Hopper; a sensibilidade cutânea de Scarlett Johansson; o desfazer da máscara de Ingmar Bergman e Henrik Ibsen. Toda a opinião sobre um bom filme deve ser exagerada.

João Lopes:
Será que existe uma fronteira nítida entre o realismo e tudo aquilo que já não tem nome real? Este é um filme sobre tal assombramento, construído a partir da experiência singular e perturbante da Martha do título, envolvida com uma seita alicerçada num cruel poder (masculino). Sean Durkin, estreante na longa metragem, demonstra que faz sentido continuar a dizer que existe um olhar específico da produção independente made in U.S.A.: é aquele em que o real vacila e, com ele, todos os seus nomes. texto no Sound + Vision

 

site de “Martha Marcy May Marlene”

facebook de “Martha Marcy May Marlene”

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s