“Cantigas d’amigos”, de Amália Rodrigues, Natália Correia e Ary dos Santos

Um irrepetível recital de poesia medieval pela voz de uma tríade de amigos: Amália Rodrigues, Natália Correia e José Carlos Ary dos Santos. Gravado numa das soirées na casa da fadista na rua de São Bento e registado numa peça de singular beleza – com capa da autoria da pintora Maluda, que habitualmente aí se fazia presente –, o LP “Cantigas d’amigos” foi lançado em 1971. Volvidas quatro décadas sobre a publicação original, assinala-se agora a sua primeira edição em formato digital. Considerado o mais raro exemplar da discografia de Amália, este álbum é um belíssimo compêndio de guitarra, viola e arte trovadoresca que reúne cantigas de amigo, escárnio e maldizer, e pastorelas de diversas proveniências. O galaico-português de Dom Dinis, Afonso X, dos reinos de Castela e de Leão, João Garcia de Guilhade ou Nuno Fernandes Torneol, atualizado pela mão de Natália Correia (que se preparava para publicar, em 1970, a antologia “Cantares dos trovadores galego-portugueses”, de onde são extraídos os poemas que aqui se declamam), funde-se com o discurso melódico das composições concebidas pelo virtuoso da guitarra portuguesa, José Fontes Rocha. Pedro Leal, Joel Pina e Carlos Gonçalves acompanham-no para um diálogo entre o fado e o cancioneiro dos alaúdes, jograis, donzelas e trovadores, dito por Ary dos Santos e Natália Correia, e cantado por Amália.

disco “Cantigas d’amigos”, de Amália Rodrigues, Natália Correia e Ary dos Santos
Valentim de Carvalho / iPlay, 1971 / reed. 2012

 

Paula Pina:
Diz-se da voz de Amália: única, intemporal, inimitável. Do seu estilo: irrepetível, marcante. O que muitas vezes não se assinala é que a rodeavam artistas extraordinários. Graças a este disco conseguimos desvendar um pouco desse universo e perceber quão valiosos foram esses “amigos”. Um disco de facto único, essencial para uma iniciação (mesmo precoce) à discografia de Amália. Um disco-memória e dupla homenagem, retrato de dois tempos especiais na história da cultura portuguesa – o tempo dos trovadores e aquele outro, tão português e tão próximo ainda, em que à mesma mesa (entre a sopa de coentros e o bacalhau), se reuniam saberes e vozes, talentos múltiplos e prazeres tais que dessa colaboração inesperada resultou este fabuloso registo: de amigos, entre de amigos, para amigos.

 

site de Amália Rodrigues

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