“Patience (after Sebald)”, de The Caretaker

Inspirado pela ambiência onírica da sala de baile de “The shining”, de Stanley Kubrick, e pelas peças de jazz “ballroom” que Jack (o “caretaker” do hotel, ou seja, Jack Nicholson no desempenho virtualmente insuperável da sua carreira) ouve na mítica cena com o bartender, The Caretaker é provavelmente a mais imanente e entusiasmante das diversas máscaras criativas do produtor e compositor de música eletrónica Leyland Kirby, procurando com ela explorar os limites plásticos e os efeitos infraconscientes do som. No assombroso (no duplo sentido…) “An empty bliss beyond this world”, álbum do ano passado, The Caretaker trabalhou a partir de discos de jazz para dançar em 78 rpm dos anos 20 e 30 e aprofundou, com uma abordagem próxima da filosofia dos re-edits, um dogma programático que tem sido transversal ao projeto desde os seus alvores (“Selected memories from the haunted ballroom”, de 1999), e ao qual dá continuidade, com igualável mérito, no recente “Patience (after Sebald)”. Resultante de um trabalho conjunto com o realizador Grant Gee, este disco foi especialmente concebido para um documentário sobre o escritor alemão W. G. Sebald (com o mesmo título do álbum), centrado numa das suas obras mais conhecidas, “Os anéis de Saturno”. Em “Patience (after Sebald)”, há afinidades de ordem conceptual com o autor germânico – The Caretaker sonda, através da justaposição de várias camadas sonoras, os loops intermináveis das funções cerebrais (espelhados em “When the dog days were drawing to an end”), tomando por matéria de base a peça “Winterreise”, de Franz Schubert, para o seu intangível exercício de desfragmentação. Faz da melancolia ambiente e experimenta as texturas mediante um som estático, ruídos e ecos espectrais de almas que parecem viver no limbo (ou apenas nas prensagens arcaicas dos discos de 10″ que Kirby modela), que confundem quem as ouve quanto à sua realidade. The Caretaker penetra nos meandros mais obscuros da mente e capta, pela sua ambiência “uncanny” (aquela que, ao mesmo tempo que amedronta, atrai) as impressões da memória fractária, do mundo dos sonhos e dos pesadelos, recriado, com uma aura fantasmática e surrealista, em “In the deep and dark hours of the night” ou em “No one knows what shadowy memories haunt them”. Sombrio e hipnotizante, “Patience (after Sebald)” é uma singular reflexão sobre um mundo em declínio, um corpo que se degrada, tal como o pensou Sebald, mas uma mente cujos caminhos jamais serão passíveis de ser determinados.

disco “Patience (after Sebald)”, de The Caretaker
History Always Favours the Winners / import. Flur, 2012

 

site de Leyland Kirby

bandcamp de The Caretaker

 

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