Category Archives: Música

“Union”, de Paradoxical Frog, e “Capricorn climber”, de Kris Davis

capa paradoxical frog union

A pianista e compositora canadiana Kris Davis, não obstante a distinção que tem vindo a granjear na cena jazz nova-iorquina e mundial, parece permanecer ainda um segredo relativamente bem guardado por territórios lusos – e nem os vários álbuns que, desde 2010, lançou pela portuguesa Clean Feed conseguiram alterar essa condição. Dois CDs recentes poderão, contudo, ajudar a corrigir tamanha injustiça. “Union”, lançado no final de 2012, dois anos depois da estreia homónima, dá nome ao segundo trabalho discográfico do trio Paradoxical Frog, no qual Kris Davis se faz acompanhar pelo versátil percussionista e trombonista Tyshawn Sorey (que é, tal como Davis, acompanhante algo regular de Sara Serpa nos seus périplos concertísticos em Nova Iorque) e pela soprista alemã Ingrid Laubrock. A irregularidade rítmica da bateria e o Continue reading

“Surinam! – Boogie & disco funk from the surinamese dance floors, 76’ – 83’”

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Apresenta-se como um gorduroso decalque, mas compreende-se mais enquanto uma cintilante ilustração do conceito de alteridade, a ação destes emissários do hedonismo com tantas e tão improváveis procedências. Lembrando que, por exemplo, no campo específico do modernismo musical pós-independentista em solo africano, a entronização de Fela Kuti nos mercados ocidentais de noventas serviu de pretexto para Continue reading

“The sirens”, de Chris Potter

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Pese embora a ocasional acerbidade que projeta nos Underground – e o brilho de duas décadas enquanto líder dignificou um número invulgar de estratégias de promoção mais adequadas a debutantes –, não é propriamente nome que se associe a heroísmos ao saxofone. Pelo contrário, quer pelos seus mais coesos e controlados registos nas editoras Criss Cross, Concord ou Sunnyside, quer pela sua melodista sobriedade ao serviço de Dave Douglas, Paul Motian ou Dave Holland, o seu elementar funcionalismo sobreveio sempre à musculada elegância ou à temperamental consideração das suas leituras. Por isso, desperta alguma perplexidade que, em mais uma estreia – no caso, a primeira gravação em nome próprio para a ECM –, Chris Potter se decida aventurar pelos terrenos do Continue reading

“Provoke”, de Made To Break

capa made to break provoke

Curiosamente, “Made to break” é o título de um tratado sobre obsolescência editado há meia dúzia de anos por Giles Slade – que, entretanto, em “Big disconnect”, avançou para a igualmente acutilante temática da tecnologia e solidão, preparando-se para, até ao fim do ano, lançar um caucionário ensaio inspirado pelo iminente êxodo calculado em virtude das consequências do aquecimento global. Mais do que por facilitismo titular, a premência da evocação da obra de Slade no contexto da ação desta nova banda liderada por Ken Vandermark (com Tim Daisy à bateria, David Hoff em baixo elétrico e Christof Kurzmann no software lloopp) advém de, em ambos os casos, se refletir acerca de processos e arquiteturas de controlo – a que não será indiferente a Continue reading

“Tlês”, de Adriana Partimpim

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Partimpim passeia prazenteiramente pelo desacerto neste “Tlês” – nomeadamente na configuração de lúdico pechisbeque que aplica a peças de requintada joalharia do quilate de “Taj-Mahal” (Jorge Ben), “O pato” (Jayme Silva e Neusa Teixeira), “Acalanto” (Dorival Caymmi) ou “Passaredo” (Francis Hime e Chico Buarque), e na despropositada prosódia do seu charmoso sotaque gaúcho – melhor enunciado na provocação hermenêutica de Continue reading

“Zebulon”, de Peter Evans, John Hébert e Kassa Overall

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Por mais extraordinariamente idiomática que seja a expressão de Peter Evans – e, nos últimos anos, porventura à exceção de Nate Wooley, dificilmente se encontrará um trompetista com ação de tal forma prevalente no grémio da música improvisada –, há momentos em que possui consequências eminentemente revogatórias. No sábado passado, no Teatro Maria Matos, em concerto com um Rodrigo Amado Motion Trio humildemente empático e Continue reading

Tulipa Ruiz, disco e concertos em Portugal

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Após “Efêmera”, o tempo, na sua insensível arbitrariedade, permanece como uma mesmérica presença no exuberante universo de Tulipa Ruiz; como um centro gravitacional para instantâneos ficcionais que tratam, frequentemente, e com um teatral sentido do dramático, da qualidade aleatória das atrações recíprocas, da imoralidade do Continue reading