“The sirens”, de Chris Potter

capa chris potter the sirens

Pese embora a ocasional acerbidade que projeta nos Underground – e o brilho de duas décadas enquanto líder dignificou um número invulgar de estratégias de promoção mais adequadas a debutantes –, não é propriamente nome que se associe a heroísmos ao saxofone. Pelo contrário, quer pelos seus mais coesos e controlados registos nas editoras Criss Cross, Concord ou Sunnyside, quer pela sua melodista sobriedade ao serviço de Dave Douglas, Paul Motian ou Dave Holland, o seu elementar funcionalismo sobreveio sempre à musculada elegância ou à temperamental consideração das suas leituras. Por isso, desperta alguma perplexidade que, em mais uma estreia – no caso, a primeira gravação em nome próprio para a ECM –, Chris Potter se decida aventurar pelos terrenos do concetualismo épico, inspirado pela “Odisseia” de Homero. Mas logo se verifica que “The sirens” não trata tanto de uma transfiguração quanto da ratificação de certos princípios essenciais à prática do seu autor: uma imperturbável confiança nos seus dotes de solista, uma disposição discursiva em que a moderação assume uma qualidade ética, a discreta tendência para exóticas configurações, um estilo robusto, cortês e maduro. Nessa perspetiva, apresenta uma visão eminentemente psicológica e identitária do périplo de Ulisses, transferindo saudade, amor e paixão para o âmago de um hospitaleiro quinteto: Potter, alternando com rigor dramatúrgico saxofones tenor e soprano e clarinete baixo, Larry Grenadier, conferindo ao seu contrabaixo a mais teatral expressividade, Eric Harland, determinando o ritmo da ação com um vigor demiúrgico, Craig Taborn, amansando ou embravecendo marés ao piano, e David Virelles, espraiando-se ao piano preparado, celesta e harmónio, polvilhando no ar notas soltas como crepusculários. Trata-se de uma interpretação velada, permeável ao mistério mas avessa à indulgência atmosférica, capaz de propor uma vulnerável transparência nos seus materiais mais imediatos e de sugerir simultaneamente uma intrigante contracorrente na sua exposição, num quadro geral de dúctil virtuosismo e circunspeta solenidade.

João Santos

disco “The sirens”, de Chris Potter
ECM / Distrijazz, 2013

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