“Surinam! – Boogie & disco funk from the surinamese dance floors, 76’ – 83’”

capa surinam

Apresenta-se como um gorduroso decalque, mas compreende-se mais enquanto uma cintilante ilustração do conceito de alteridade, a ação destes emissários do hedonismo com tantas e tão improváveis procedências. Lembrando que, por exemplo, no campo específico do modernismo musical pós-independentista em solo africano, a entronização de Fela Kuti nos mercados ocidentais de noventas serviu de pretexto para múltiplas investidas num terreno fértil em mitos de origem, não faltando logo quem – expedido por editoras como Strut, Popular African Music, Soundway, Vampisoul, Analog Africa ou Sterns – sugerisse novas versões dos acontecimentos. Usando uma malha ainda mais apertada do que a originalmente empregue pelos promotores do conservacionismo cultural em territórios terceiro-mundistas – conforme, insensatamente, se designavam – e agindo sem as restrições impostas pela cartilha da autenticidade, juntas, com os seus achados, aplicaram desde então uma razoavelmente rigorosa revisão aos dicionários do rock, do funk, da soul ou do jazz à escala mundial, com cruciais paragens por Zâmbia, Nigéria, Gana, Benim ou Etiópia. Mas foi no capítulo do disco sound – de uma antologia de Kiki Gyan às reedições de álbuns de Rob, Joni Haastrup ou Lijadu Sisters, passando pelos exemplares compêndios “Lagos disco inferno” e “Brand new wayo – Funk, fast times & nigerian boogie badness, 1979 – 1983” – que se produziram as mais inesperadas revelações. Repentinamente, e com o mesmo vigor com que há tantos anos, nessas perenes moradas da crise, havia sido concebido, de Acra, Lagos ou Cotonou – e com ecos detetados nas costas ocidentais e orientais, e até mesmo na África Austral –, despontou um lambuzado composto que, com apurado sentido de urgência, elencava a mais confiante megalomania sexual, uma vibrante luxúria orquestral, simulados e jactantes falsetes, lúbricas e propulsivas linhas de baixo, sussurradas declamações coitais, lascivos violinos, onanistas guitarradas, ejaculatórias e voluptuosas vocalizações, retórica materialista, ilusões de grandeza e desejos de eternidade, enfim, uma amálgama exponencialmente mais oleosa do que a prototipicamente promulgada pela embaixada norte-americana no género (de Ohio Players, B.T. Express, Trammps ou Blackbyrds a KC & The Sunshine Band, Heatwave, Kool & The Gang ou Chic, estendendo-se até Parliament, Rick James, Cameo ou Prince), e infinitamente menos calculada do que a esboçada pelas congéneres europeias do período (Boney M, Cerrone, Gonzalez, Voyage, Kano, Imagination, etc.). E tudo isto porque, de súbito, apontando baterias a um recanto da América do Sul com meio milhão de habitantes se declara que – embora sem impacto comercial mas com similar estilização e uma languidez e elasticidade indesmentivelmente caribenhas – também no Suriname ganhou na altura razão de ser este surpreendente desvio ao cânone, em vitais, impulsivas e arrivistas manifestações encabeçadas por Alwyn Reingoud, Erwin Bouterse & Group Roetoe, Sumy, Solat, Thunderstorm ou Usje Sukatma, capazes de, mais uma vez, colocar do avesso os livros de História.

João Santos

disco “Surinam! – Boogie & disco funk from the surinamese dance floors, 76’ – 83’”
Kindred Spirits / import. Flur, 2012

 

2 responses to ““Surinam! – Boogie & disco funk from the surinamese dance floors, 76’ – 83’”

  1. isto deve ser brutal…

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