“A passo de caranguejo” e “Construir o inimigo”, de Umberto Eco

capa umberto eco construir o inimigo

Somos seres “que têm necessidade de um inimigo”. Somos seres para quem o “Outro” é insuportável, pois não é “Nós”. Reduzindo o “Outro” a “Inimigo”, assim “construímos o nosso inferno na terra”, escreve Umberto Eco. Se o título nos remete de imediato para um dos romances do autor, “O cemitério de Praga”, e se os textos reunidos neste “Construir o inimigo”, evocam, na extrema diversidade temática, as suas múltiplas fontes  – conferências e comunicações proferidas em contextos diversos (de festivais de cinema a escolas, universidades e associações) e ainda artigos dispersos na imprensa italiana -, é pela amplitude e risco assumidos nessa mesma variedade que vale esta obra. Política, sociologia, literatura, história, filosofia, comunicação, religião, coexistem, criam sentidos, valem efetivamente pela controvérsia e pelas estranhas e subtis complementaridades. E oferecem-nos o mais singular espetáculo do mundo: o da mente brilhante que pensa.

capa umberto eco a passo de caranguejo

Nesta capacidade de criar ligações e de fazer o leitor descobrir elos antes invisíveis reside um dos talentos de Eco. No final de “Construir o inimigo” parece-nos descobrir já o outro livro de intervenções e artigos escritos no “período fatídico” que cobre o 11 de setembro e a subida ao poder de Berlusconi, “A passo de caranguejo – Guerras quentes e populismo mediático”. Ou seja, embora este último tenha surgido na sequência de uma outra coletânea (“La bustina de Minerva”), apetece-nos ajustar continuidades: “há tempos, tinha escrito que a tecnologia avança agora a passo de caranguejo, isto é, para trás”, afirma Eco em “Construir o inimigo”. Já em “A passo de caranguejo”, exemplos assustadores de “marcha atrás” ou “involução” se elencam então, num terceiro milénio “pródigo” em recuos, tanto na tecnologia como na religião e na política, na geografia e na guerra. Por vezes num registo oscilando entre o humor sagaz e a mais profunda simplicidade irónica, entre a sapiência visionária e a eloquência paternalista, sentimos que Eco assume a tarefa de quem decidiu, nestes tempos sombrios para o pensamento crítico, enviar a mensagem dentro da garrafa. “Mais parece que a história, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, regressando aos faustos confortáveis da tradição”. Agora, o “inimigo”, de “identidade incerta”, “está na nossa retaguarda”…

livro “A passo de caranguejo – Guerras quentes e populismo mediático”, de Umberto Eco
Gradiva, 2012

livro “Construir o inimigo e outros escritos ocasionais”, de Umberto Eco
Gradiva, 2011

Paula Pina

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