“Avanço”, de Tamba Trio, e “A música de Edu Lobo por Edu Lobo”, de Edu Lobo

Dos prolíferos e seminais anos 60 da música moderna brasileira, a Soul Jazz – chancela britânica irrepreensivelmente diligente na reedição de registos fulcrais dos diversos cambiantes da música de educação negra – recuperou recentemente duas das suas peças canónicas. “Avanço” é o segundo LP do Tamba Trio, grupo fundado por Luiz Eça, visionário compositor, arranjador e pianista de apuradíssimo sentido melódico, originário do Rio de Janeiro. Ensemble de piano (por Eça), flauta, contrabaixo, saxofone (por Bebeto Castilho) e percussão (por Hélcio Milito, que toca bateria e tamba, o instrumento que dá nome ao conjunto), a formação apresenta inéditos e reescreve standards recentes – à época – do cancioneiro da bossa nova, como “Garota de Ipanema” ou “Só danço samba”, geridos por uma paradigmática combinação de música popular e erudita. “Mas que nada”, “Negro”, “Mania de Maria” e “O samba da minha terra”, com laivos de improvisação e suites instrumentais, são temas modelares que fazem de “Avanço” uma simbiose de estilos e um elegante exercício primacial de bossa jazz, ainda que construído quatro anos depois de “Chega de saudade”, de João Gilberto, o momento em que toda a modernidade musical brasileira efetivamente nasceu. É igualmente a tímbrica das convergências de Luiz Eça que se ouve com protagonismo sensorial no primeiro longa duração de Edu Lobo – transversalmente contagiado pela participação do Tamba Trio -, cujos arranjos ostentam o génio da responsabilidade do pianista falecido há exatamente 20 anos (a 25 de maio de 1992). Ideologicamente comprometidas e subtilmente libertárias, a lírica e a sonoridade de “A música de Edu Lobo por Edu Lobo” são símbolo da emergente segunda geração da bossa nova e manifesto panfletário da música popular brasileira, que, em 1965, ano da edição do LP, conhecia dias centrais da sua alvorada. “Arrastão” (a que Elis Regina daria voz num decisivo festival televisivo) e “Zambi”, poemas que o autor assina com Vinicius de Moraes, “Reza” ou “Canção da terra”, de Lobo e Ruy Guerra, espelhavam uma vontade de reaproximação às referências matriciais – como o samba – e uma concomitante denúncia do contexto sociopolítico, que conduzira, no ano precedente, ao golpe militar. A crítica racial, a ironia perante o divino e a soturnidade no elogio do amor eram sintomáticos de uma época de reestruturação dos modelos e suas diretrizes, que, com o disco de Edu Lobo, teve a primeira grande expressão de que muitos “estavam chegando daqui e dali” para reinventar as linhas da bossa nova.

disco “Avanço”, de Tamba Trio
Soul Jazz / Megamúsica, 1963 / reed. 2012

disco “A música de Edu Lobo por Edu Lobo”, de Edu Lobo
Soul Jazz / Megamúsica, 1965 / reed. 2012

 

João Santos:
Embora dependente de irrevogáveis contribuições individuais dos seus integrantes (em fases relativamente conturbadas, deste trio – que também foi quarteto – fizeram parte Bebeto Castilho, Hélcio Milito, Durval Ferreira, Rubens Ohana, Dório Ferreira e Laércio de Freitas), nota-se essencialmente na produção do Tamba o cumulativo génio de Luiz Eça. Mas, no específico traço homologado pela bossa nova, a soma dos seus variados interesses gerou um quadro sintético, exato, elegante, enxuto, capaz de antepor à força essencial extraída, por exemplo, ao jazz ou à tradição dos conjuntos vocais um económico e sóbrio funcionalismo. Essa perspetiva, que, à semelhança da conceção harmónica nas criações de Tom Jobim, fazia de certo modo uma ponte entre Claude Debussy e João Gilberto, deu origem a uma técnica – e não tanto a um conjunto de originais – que, ainda na década de 60, gerou mais-valias em discos de Maysa, Marcos Valle, João Mello, Quarteto em Cy ou Edu Lobo, de quem foi notável intérprete. Aliás, o seu gesto depurava então – à exceção da trindade acorde, ritmo e voz aprendida com Gilberto – um conjunto de premissas previamente explanadas nos seus dois primeiros – e raríssimos – LPs em nome próprio (“Uma noite no Plaza”, de 1955, e “Um piano na madrugada”, de 1956), nos quais se estabeleciam já a predileção por solos curtos, uma tensa gestão do espaço, a derivação simbólica sobre estruturas formais ou contrastes de dinâmica. E, até à criação do Tamba, acompanhou simultaneamente os melhores instrumentistas (primeiro no Hotel Plaza e depois no bar Bottles) e vocalistas da sua geração (como nos encontros em 1958 e 1959 no Grupo Universitário Hebraico do Brasil, no 1º Festival Samba-Session na PUC ou na Escola Naval, que reuniram Sylvia Telles, Nara Leão ou Alayde Costa). Mas foi à frente do grupo – no Brasil, nos Estados Unidos ou no México – que, em pouco mais de uma década, contribuiu para a diluição de fronteiras e hierarquias estéticas, ajudando a fomentar decisivamente as mais distintivas particularidades da música popular brasileira do seu tempo.

(un)mixtapes “Bossa Jazz, 1957-1970” no Cuíca Dodecafónica

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