Joe McPhee, disco e concerto em Lisboa

Dois meses depois da memorável passagem pela Kolovrat 79 com o seu Survival Unit III, o lendário saxofonista Joe McPhee, um dos remanescentes pioneiros do free jazz e terrenos adjacentes, monumental e incontornável pensador do discurso improv mais desafiantemente criativo e político (como na sua obra prima “Nation time”), regressa esta noite a Lisboa, para subir ao palco do Pequeno Auditório da Culturgest, a convite do nórdico Trespass Trio. Com uma formação de saxofone, contrabaixo e bateria, o projeto idealizado por Martin Küchen toma por referência matricial o rock, para o cruzar com a world music das sonoridades da Guiné Conacri e com o hard bop, de onde este saxofonista bebe abundantemente, para se arriscar nos terrenos mais abstratos do jazz de corrente reducionista. Inserido no ciclo “Isto é jazz?”, este recital será mais uma oportunidade irrecusável para rever ao vivo o fulgor amiúde emocional do já septuagenário McPhee. Para complementar a experiência de palco, a caminho de casa e em muitas noites futuras, uma outra forma de sentir a presente vibração deste imenso criador poderá ser ouvida no espantoso álbum gravado em parceria com o baixista Ingebrigt Håker Flaten (membro de bandas como Atomic, The Thing, School Days ou Free Fall – as três primeiras com Paal Nilssen-Love e as duas últimas com Ken Vandermark), publicado há poucas semanas com a chancela da cada vez mais relevante Clean Feed. Um elogio a Brooklyn e às suas manifestações de música improvisada em constante reinvenção, nas quais McPhee antevê um renascimento das expressões jazz do outro lado do East River, “Brooklyn DNA” é uma simbiose sonora de inúmeras tonalidades, em que se funde e recria o discurso free, e uma apologia iluminada dos espaços, pessoas e ideias que esse património genético tem impresso, feito de música tão orgânica quanto a substância do próprio DNA. Com alusões a “The bridge” de Sonny Rollins, a “Where is Brooklyn?” de Don Cherry ou a Putnam Central (o clube frequentado por Charlie Parker ou Dizzy Gillespie), McPhee recria o “Spirit cry” do jazz, com as suas incursões crivadas de mutante liberdade formal, mas absolutamente límpidas e imaculadas de qualquer prurido. Enleados no contrabaixo de Ingebrigt, sem artifícios, os saxofones e a trompete de bolso depuram-se na improvisação para dar azo a um registo tímbrico com incontáveis camadas melódicas. Enquanto “Brooklyn DNA” não chega a uma sala de espetáculos portuguesa, rejubilemos com a honra desta segunda visita em 2012 de Joe McPhee e, por outro lado, com a otimista perspetiva do encontro com Ingebrigt Håker Flaten, liderando o seu próprio Chicago Sextet, no encerramento da próxima anuidade do festival Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian, daqui a cerca de dois meses e meio.

23 maio, 9.30 pm
concerto Joe McPhee + Trespass Trio
Culturgest, Lisboa

disco “Brooklyn DNA”, de Joe McPhee + Ingebrigt Håker Flaten
Clean Feed / Trem Azul, 2012

 

site de Joe McPhee

 

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