“Abelhas e homens”, de Markus Imhoof

markus imhoof more than honey

Eis uma curiosa interrogação cinematográfica: como seguir o movimento das abelhas? Graças à sofisticada evolução de câmaras e objetivas, Markus Imhoof pode dar uma resposta de espetacular exuberância: desde as tarefas da polinização até aos rituais no Continue reading

“Gravidade”, de Alfonso Cuarón

alfonso cuaron gravity

Paradoxo essencial: o cinema a três dimensões não se limita a alterar a composição do espaço; todo o seu aparato (incluindo os óculos que o espetador tem de usar) implica uma nova conceção do tempo, quer dizer, das durações através das quais elaboramos a nossa perceção do… espaço. Depois de Steven Spielberg (“As aventuras de Tintin – O segredo do Licorne”) e Martin Scorsese (“A invenção de Hugo”), Alfonso Cuarón surge como um dos poucos cineastas a refletir sobre as subtis implicações de tudo isso: “Gravidade” é um filme em que o 3d não se apresenta como um complemento mais ou menos pitoresco da Continue reading

“Hannah Arendt”, de Margarethe von Trotta

margarethe von trotta hannah arendt

De onde vem a noção de “a banalidade do mal”, formulada por Hannah Arendt, no ano de 1961, ao escrever sobre o julgamento, em Jerusalém, do nazi Adolf Eichmann? Sabemos que vem de uma exigência radical, radicalmente perturbante e polémica: a de tentar compreender o comportamento de Eichmann para além de qualquer abstração do mal, conferindo especial atenção ao facto de ele próprio se apresentar como um elo “passivo” (banal, precisamente) de uma hierarquia militar. Mas vem também da observação de Eichmann nas imagens do seu julgamento. O filme de Margarethe von Trotta é construído a partir da contundência dessas imagens: existem várias horas de Continue reading

“Reino animal”, de David Michôd

david michod animal kingdom

Por vezes, a recriação dos modelos clássicos acontece através de uma insólita deslocação geográfica e cultural. Assim acontece nesta revisitação do thriller americano com assinatura de um argumentista-realizador da Austrália: David Michôd recupera o jogo de ambivalências morais do Continue reading

“Eu e tu”, de Bernardo Bertolucci

bernardo bertolucci eu e tu

Onde estão os jovens envolvidos nas convulsões de maio de 68 que Bernardo Bertolucci filmou em “Os sonhadores” (2003)? Dir-se-ia que, com “Eu e tu” (estreado em Cannes 2012), Bertolucci nos vem dar notícias dos respetivos descendentes… Não são notícias redentoras, quanto mais não seja porque esta é a história de um rapaz de 14 anos que Continue reading

“The 20/20 experience – The complete experience”, de Justin Timberlake

capa justin timberlake the 20 20 experience the complete experience

A pop adquire dimensão e corpo com o espaço-tempo imposto, com uma expansão flexível que não denota a intenção oculta de tornar o refrão catchy. “The 20/20 experience” é uma estrutura orgânica que pede para ser apreciada, vivida ao longo do seu exigente programa estético. A construção das faixas privilegia um inequívoco respeito pelo ciclo de Continue reading

“Like someone in love”, de Abbas Kiarostami

abbas kiarostami like someone in love

Em 1990, Abbas Kiarostami rodou “Close-up”, sobre o episódio verídico de um homem que se fez passar por um outro cineasta iraniano (Mohsen Makhmalbaf), convencendo uma família a participar num dos “seus” filmes… O estranho efeito de verdade de “Close-up” era tanto mais envolvente quanto alguns dos protagonistas do caso participaram na (re)encenação de Kiarostami, intensificando um dos princípios do seu universo: a verdade é um produto de instável energia, resultando não de uma “transcrição” do que quer que seja, mas de uma verdadeira ocupação da realidade visível. Dir-se-ia que, na sua metódica contundência, a vitalidade de tal princípio não tem limites. Assim, em “Like someone in love”, assistimos ao encontro de uma jovem prostituta com um velho professor, rapidamente baralhado pelo Continue reading