Out.Fest 2015

out fest 2015

Desapressadamente, desde a sua génese em 2004, o Out.Fest – cujo âmbito se resume na assinatura complementar Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro – tem vindo a exclamar-se como uma das mais relevantes e credíveis anuidades concertísticas portuguesas. Agora que se cumpre a sua 12ª edição, pode orgulhar-se de reunir aquele que é seguramente o mais sólido cartaz musical do 2015 festivaleiro. No programa, a associação cultural Out.Ra – seu sustento conceptual – propõe 21 concertos, distribuídos por diversos espaços daquela cidade industrial da margem sul de Lisboa, escalados em quatro dias, entre 8 e 11 de outubro, que em comum evidenciam uma “tónica de celebração e de um sempre renovado espírito aventureiro”. São 21 formas de soar livre, afoito, desafiante, vibrante, inquiridor, informado, particular, idiossincrásico, entre as quais se destacam meia dúzia de cruciais criadores do panorama jazzístico das últimas décadas: as epifanias holísticas de Akira Sakata no seu diálogo com Giovanni di Domenico (registado no superlativo CD “Iruman“, publicado no ano passado pela portuguesa Mbari), o impressionismo ascético de Matana Roberts (ambos os recitais no dia 8), o espartano devir dos AMM de John Tilbury e Eddie Prévost (na noite seguinte) e a intrépida teatralidade de Peter Brötzmann com Jason Adasiewicz (na extensa madrugada que se prevê para a transição de 10 para 11). Digna de atenção será igualmente a frugalidade utópica de Vladislav Delay, o sincretismo metalinguístico dos Z’s, a hibridez ritualista dos Golden Teacher ou, enfim, o solipsismo herético de Russell Haswell. Como mandam os tempos, como mandam os modos, e sobretudo como manda a tradição do festival, há também muitos portugueses, ilustremente encabeçados pela identidade primeva dos Gala Drop e pelo empirismo mutante dos Caveira, num contexto onde vale a pena também acompanhar a evolução das heterodoxias umbráticas do duo de Helena Espvall com David Maranha – aqui em formato ampliado com os convidados Norberto Lobo e Ricardo Jacinto -, da virulenta diligência do trio de Afonso Simões, Pedro Sousa e Miguel Mira, da vocação sintética dos Niagara, da especulação elíptica de Filipe Felizardo ou do inusitado quimérico de Rabu Mazda & Van Ayres. Mas o momento mais singular e metafísco deste Out.Fest será provavelmente o seu encerramento, com o inefável gnoseológico de Laraaji, em duas sessões agendadas para o fim da manhã e para o fim da tarde do último dia. Por um longo fim de semana, os arredores serão o centro e o centro será os arredores. Porque as pontes foram feitas para se atravessar.

Bruno Bènard-Guedes

8 > 11 outubro
Akira Sakata / Giovanni di Domenico, Matana Roberts, Afonso Simões / Pedro Sousa / Miguel Mira [dia 8, 9.30 pm]
AMM, Vladislav Delay, Helena Espvall / David Maranha / Norberto Lobo / Ricardo Jacinto [dia 9, 9.30 pm]
Peter Brötzmann / Jason Adasiewicz, Z’s, Golden Teacher, Russell Haswell, Gala Drop, Caveira, Niagara, Filipe Felizardo, Rabu Mazda / Van Ayres,… [dia 10, 9.30 pm]
Laraaji [dia 11, 11 am + 6 pm]
Out.Fest 2015
Barreiro

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1174, de 30 setembro 2015

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