“Des pas sur la neige”, de Eve Risser

capa eve risser des pas sur la neige

Menos é mais. Outra vez. Aliás, como poucas vezes foi na história da música. Aliás, de alguma inefável expressão sensorial sugada por um buraco negro referencial, passível de existir apenas numa galáxia revelada consideravelmente para lá da música – o foco está praticamente todo na cabal imersão no som, num absoluto pianístico rigorosamente inaudito, na exploração radical de milagres instrumentais ritmicamente espartanos, harmonicamente assimétricos, e no silêncio como matéria prima e sustento anímico de toda a narrativa sónica que se vai paulatinamente desvelando. Tudo acontece no prodigioso elo de tempo e espaço da relação pungentemente ficcional e desafiantemente dramática entre um piano e a monumental verve composicional da artista sonora Eve Risser, que aqui, pelo meio dos mais incomplacentes nevões, escala um cume montanhoso ainda mais elevado do que aquele que era o ponto de difícil superação da sua breve discografia, o álbum “En corps”, publicado em 2012 pelo seu trio com Benjamin Duboc e Edward Perraud, e imaculadamente representado em março do ano seguinte num inolvidável recital na Culturgest de Lisboa. “Des pas sur la neige” é a alma isolada e reducionista desse disco, um tratado de leituras exponencialmente infinitas sobre as afinidades entre natureza “biológica” e natureza humana, protagonizado por um piano quase demasiado sensível no seu esplendor ontológico – todos os pianos são idênticos no seu âmago, mas distintos na dinâmica organizacional do seu potencial, e é exatamente isso que aqui se ouve: personalidade. A personalidade múltipla, quase esquizóide, deste piano e da sua mestra, que nos impelem a reequacionar mentalmente séculos de erudição musical para tecla, um piano simultaneamente iconoclasta e sem passado, sem dogmas, epifania criativa puríssima, capaz de reinventar tons, capaz de forjar notas expandindo-lhes as fronteiras da sonância. Tal como o título insinua, tudo aqui são pegadas desbravando novos trilhos sinestésicos em paisagens enigmáticas, numa tour de force solitária e intimista de uma pesquisadora que não cessa de indagar, provocar, enfatizar o que de mais insondável há no habitat eletroacústico, como se investigando a miríade de matizes de branco inventariados no léxico inuíte: consegue ser original, atonal, espectral, assombrado, tétrico, industrial, austero, renitente, tenso, inusitado, gracioso, orgânico, elíptico, especulativo, abstrato, poético, realista, cerebral, matemático, hipnótico, minimalista, imensamente complexo e livre, ou seja, um espelho fosco do que há de mais evolutivo no jazz contemporâneo e seus derivados, improvisados ou não. Mantendo sempre tudo ao nível do essencial (no duplo sentido…).

Bruno Bènard-Guedes

disco “Des pas sur la neige”, de Eve Risser
Clean Feed, 2015

 

texto originalmente publicado no Jornal de Letras n.º 1172, de 2 setembro 2015

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