Monthly Archives: January 2014

“Ninfomaníaca, vol. 1”, de Lars von Trier

lars von trier nymphomaniac volume 1

É bem verdade que Lars von Trier não é estranho às atribulações mais desagradáveis que, direta ou indiretamente, o seu trabalho já provocou. Para o comprovar, bastará recordar as suas declarações, no mínimo infelizes, sobre o nazismo em conferência de imprensa do Festival de Cannes de 2011 (que, aliás, levaram o certame a considerá-lo persona non grata). O certo é que tal perfume de “polémica” não justifica que reduzamos os seus filmes a uma mera bandeira do “choque” ou do “escândalo”. O caso de “Ninfomaníaca” parece ser sintomático (aguardamos, em qualquer caso, a estreia da segunda parte). Na verdade, a sua fama de objeto que desafia os limites correntes da figuração da sexualidade carece de Continue reading →

“O lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese

martin scorsese the wolf of wall street

De que falamos quando falamos de circulação de dinheiro? Por certo de economias e finanças, estratégias de lucro ou lógicas de investimentos… Quase duas décadas depois de “Casino” (1995), sobre o jogo em Las Vegas, a resposta de Martin Scorsese volta a ser bem diferente e incomparavelmente mais visceral. A saber: o dinheiro segue os desejos humanos, sustenta ou decompõe os nossos imaginários e imaginações, enfim, a sua intensidade passa sempre pelos corpos. Daí que “O lobo de Wall Street”, inspirado na vida real de Jordan Belfort (condenado por práticas ilícitas na bolsa de Nova Iorque durante a década de 90), possua o delírio e a Continue reading →

“Lovelace”, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman

rob epstein jeffrey friedman lovelace

A história da protagonista de “Garganta funda” (1972) é, necessariamente, uma saga cinematográfica. Porque a sua protagonista, Linda Lovelace (1949 / 2002), se transformou num símbolo da reconversão comercial da produção pornográfica ao longo da década de 70? Sem dúvida. Mas também porque a dimensão mitológica que o Continue reading →

Ciclo Ingmar Bergman

ingmar bergman

A realização, em várias cidades do país, de um ciclo com 17 filmes de Ingmar Bergman (1918 / 2007) envolve algo mais do que a possibilidade de ver ou rever uma coleção de preciosidades que vão desde os clássicos consagrados em todas as histórias do cinema — “Mónica e o desejo” (1953), “Morangos silvestres” (1957) ou “A máscara” (1966) — até raridades absolutas, inicialmente concebidas para televisão, como “Ritual” (1969) ou “Depois do ensaio” (1984). Estamos mesmo para além da Continue reading →

“12 anos escravo”, de Steve McQueen

steve mcqueen 12 years a slave

Na esmagadora maioria das notícias sobre “12 anos escravo”, não se refere o facto de Brad Pitt, além de ter um pequeno e significativo papel, ser também um dos produtores do filme. A omissão é sintomática de um fenómeno muito típico do nosso espaço mediático: tudo o que se desvia um pouco das categorias formatadas da “informação” é, por princípio, ignorado (por vezes intensamente recalcado). Podemos dizer que o filme de Steve McQueen se constrói, justamente, a partir de uma discussão metódica da formatação da história da escravatura. Desde logo, no plano histórico, expondo uma Continue reading →